INSPIRAÇÕES DO POETA

29 de set de 2010

O Menino Que Só Tinha Olhos




Havia um menino que só tinha olhos e todos diziam: Ele só tem olhos e olhos sem vida!

Seus ossos perfuravam-lhe a carne ressentida até a árida pele negra, onde insetos bebiam-lhe o suor.
Órfão de infância e identidade aguardava no presente esgotado, o futuro que não viria e, sem nenhum ruído, ele entedia.
Sabia-se sem pipa dançando a canção do vento. Sem frutas roubadas no pequeno pomar. Sem lousa e giz, lápis ou caderno. Sem dever de casa, sem casa.

Nunca houve pés correndo no tempo da felicidade e jamais haveria!
Sem pensar em crescer, como adivinhasse não poder, embora por um ínfimo tempo suspirasse a juventude, ele engolia a terra esquecida, que lhe arranhava as vísceras estranguladas. Uma dor inata e sem bálsamo!

Morria desde o nascimento, num chão revolvido de tuberculose e malária, onde não há Deus e sim, um mundo segregado de todos os mundos.
A vida era carcomida e suja, quando deveria ser bola ou peão, e aspirações cotidianas da infância. No deserto de areia e alma, o menino recolhia os cadáveres como legado.

Havia um menino que só tinha olhos e ninguém dizia: Ele só tem olhos, mas são olhos de socorro!

Seu desnudo corpo esquálido estampava desonra e desamparo e cada gota de sangue contaminado que brotava das chagas, em serpente transformava-se. As víboras se multiplicavam e engoliam os meninos.
Ele só sabia olhar, sem os girassóis da idade, ávidos de luz. Não deflagrava gritos, nem acenava lágrimas, apenas deixava-se aprisionado no cárcere do descaso.

Seu lamento - Um olhar de olhos que são tristes, como se neles, só existissem a tristeza de lá, como quem quer abreviar a vida e renascer ao largo de coisas possíveis.

Havia um anjo negro, e tantos outros anjos negros, sem asas pra voar, pois lhes tiraram as penas. Como alçar vôos sem céus?

Havia um anjo proscrito e refugiado no inferno, em berço miserento e pungente, sem fúria, sem queixume. Somente, um olhar de olhos que são tristes, como se neles, só existissem a tristeza de lá.

Havia um menino. Hoje, não há!

19 comentários:

Márcio Kindermann disse...

Mais uma vez gritei, onde está a chave que abre esta porta?

Havia um menino. Hoje, não há!

Eu, voce e todos nós cretinos... choramos esta desgraça, só choramos, não devolvemos o direito da bola e do peão e eles continuam na vida carcomida e suja.
Eu cretino, reclamando que a água da piscina está verde por causa da chuva.
Pobres meninos, pobres cretinos...
Hoje voce fez sangrar...
bj meu
mk

Úrsula Avner disse...

Olá amiga,

uma realidade cruel que vc soube transformar em belo poema. Bjs.

Jorge Pimenta disse...

soeiro pereira gomes, nos alvores do neo-realismo, dedicava a sua obra maior, "esteiros", aos homens que nunca foram meninos. afinal, e aqueles que nunca foram meninos e jamais serão homens?...
um beijo, poeta das faces mil!

| A.Luiz.D | disse...

Impactante,foto e título.
A outra face. Gosto de fugir um pouco da platéia, tento me sentir e me colocar neste cenário sem saber mergulhar.
Me abrir os olhos, só que diferente do garoto.

O seus comentários sempre batem com minhas idéias, adoro te ler tb.

bjos

Kátia disse...

Triste e real.
Os olhos falam tudo.
Como sempre, muito intenso.
Beijos queridona!!!

CANELAFINA disse...

Diante disto nossa Indignação. Uma tristeza profunda que precisamos enfrentar com LUTA jamais com resignação. Boa luta, este é o caminho....

Lily disse...

A culpa não é de Deus, é dos homens.

Infelizmente, é de todos nós humanos.

Um abraço, texto sentido esse. Mexeu comigo.

Suzana/LILY

P.S.: saí da beira da estafa, voltei, devagar, mas voltei. As últimas postagens que fiz já estavam prontas, na pasta de rascunhos.

Carolina disse...

Oi Ira!
Muito comovente história, pobre criatura de Deus, aqueles olhos me partir o coração triste ... Há muitos casos e, infelizmente, eu me pergunto se um fim do dia o horror.

Estou enviando-lhe um grande abraço.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Infelizmente essa é a dura realidade do momento. Poderá melhorar a partir do dia em que os poderosos se conscientizarem de que dinheiro não se come.

Beijos,

Furtado.

José Carlos Brandão disse...

Que dor, Ira.
E não podemos fazer nada. Esse sentimento de impotência avassala-nos. Às vezes penso que a impotência diante da dor, da injustiça, da miséria, da desumanidade em que tantos seres humanos são lançados... Essa impotência, existe dor maior? O pior é que existe: a dor dos miseráveis.

Um abraço amigo.

António Rosa disse...

Ira,

é necessário quem levante a voz, sobretudo em forma de poesia, pois chega-nos à alma, num instante.

beijos.

Saulo Taveira disse...

Ira,

tocado, chocado, inerte. Tuas palavras bateram e ficaram.

Lindo poema-relato.

Beijos, emudeci.

Érica disse...

Que grito hein Ira!

é uma pena que os homens, que se julgam senhores do mundo, nem chegam a perceber que o menino não está mais "lá".

um bjãO

Rob Novak disse...

"Como alçar vôos sem céus?" Síntese da desesperança. E o olhar triste do menino sabe disso, sem quere-lo.

Ótimo poema de um assunto tão triste.

Bjo

Acho que nem agradeci pela visita e comentário em meu blog, então, obrigado por ter aparecido por lá e fique à vontade para voltar mais vezes!

Marcelo R. Rezende disse...

Esses olhos que suplicam vida.

Impressionante como doeu esse texto.
E por isso, obrigado, Ira!

Lua Nova disse...

Como disse o Márcio, hoje vc fez sangrar... cara a cara com a minha impotência, me pergunto até que ponto sou cúmplice desse fratricídio? Pago meus impostos, voto, cumpro minhas obrigações civis e cuido da minha vida... sustento meus filhos a duras penas. Será suficiente? Por que o país não cuida de seus filhos mais necessitados? Será que a responsabilidade pode ser toda transferida aos governos que se sucedem e nada muda? Será que eu devia estar nas ruas exigindo atitudes dos poderes instituidos?
Não sei... não tenho condições para isso. Só sei que dói terrivelmente ser testemunha da miséria humana.
Não a dos pobres, não... a dos poderosos!
Que Deus tenha misericórdia de nós!

Paixão, tem um carinho pra vc lá no Chocolate. Passa lá, tá?
Beijokas.

Franck disse...

Os meninos...daí, daqui... de lá... Que texto forte, Isa! Vou deitar como se tivesse levado um soco na alma e no coração...
Demorei na minha visita, mas o tempo não pára!
Bjs*

Antonio José Rodrigues disse...

O menino só têm olhos, Ira, porque os políticos comeram os seus pães. Beijos

Sil.. disse...

E a gente reclama da chuva, do frio, de tudo!

Me sinto um LIXOOO lendo isso!

Beijooooo amada!!