INSPIRAÇÕES DO POETA

21 de ago de 2010

Amor, cubismo, amor




Tua alma sem rédeas corre mundo e em silêncio passa.
Não sabe dizer quem é. Não se sabe, de tão grande, apenas suspeita.
Deixa-te mistério, suficiente, pra que meu coração ávido beba o desvario.
Coração esse, que sofre simples, depois descansa nas redes dos amigos.
Deus me deu esse defeito, o de amar tanto, que nem sempre sei o que fazer com isso.
A orelha em atrito com a boca ganha confissão. “Sou a minha solidão”.
Não entendemos essa simbiose, mas é curioso, como não precisávamos entender.
Enviesamo-nos por tempos camaleônicos e, há uma simpatia pecadora nessas mutações, que decodificamos por intuições.
Era essa inquietação de Lispector, quando os abismos se reconhecem, que nos tragou.
Minha língua lambeu o sal teu, da cara e todos os nossos pecados se encontraram na garganta. Gritamos: Marginais e daí!
E daí, que alguém tenha dedos de pincéis e que eles profanem, de cores quentes, meu corpo! É só um corpo infernal de água, sangue e lixo. Quero ter a aparência do que ele gosta.
E daí, que os poemas sejam sujos e o poeta mais ainda! Por acaso, alguém desinfeta seu subterrâneo? Meu inferno tem o cheiro dos amantes e guarda grandes venenos nas paredes. Ele, esfinge, me quer e come, palavra por palavra.
Gritamos até estilhaçar as vidraças dos homens de frestas e ópios, melhor que nos cuspam ódio do que mediocridade.
Transformados em cubismo de Duchamp (nus descendo as escadas... que vai dar em nós), visivelmente caleidoscópicos, nos amamos além de qualquer enquadramento ou de qualquer aparência real das coisas.
Amamo-nos sobre a arte.
Amamo-nos sob as sobras.

10 comentários:

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá amiga! Passando para te desejar uma ótima semana e dizer que adorei o poema, muito profundo.

Beijos,

Furtado.

Jorge Pimenta disse...

olá, ira!
a em@, cá da blogosfera, deixou no meu blogue um selo com a sugestão de que o reencaminhasse para quatro outros blogues com que me identificasse. o teu é um deles, como bem sabes e, de resto, como este magnífico amor, cubismo, amor (ou amor ao cubo:)) bem o documenta. passa lá para o recolheres, assim que te seja possível.
um beijinho!

Por que você faz poema? disse...

Gritar até estilhaçar: poesia.

Lila disse...

Amemos a arte,o céu o inferno...nosso e dos outros...
Bebamos nossos proprios venenos, principalmente aqueles que simplismente inventamos.
Fantasiemos o amor e o ódio...que sintamos sempre, pois sem sentir somo o vazio.
Bjs queridíssima poetisa.

Fernando Santos (Chana) disse...

Belo poema...Espectacular....
Cumprimentos

José Alba disse...

Tienes un Blog hermoso, bonitas palabrs. Un abrazo

Reflexo d Alma disse...

Que delícia!
Linda semana.
Bjis entre sonhos e delírios

Jorge Sader Filho disse...

Ira dá um passeio pelos sentimentos e acaba por nos levando a Marcel Duchamp, o pintor dos nus assombrosos.
O blog bem cuidado demonstra que valeu a pena o trabalho.
E a dona dele é uma linda mulher!

Carinho,
Jorge

Tiago Moralles disse...

Facetas do coração.

J Araújo disse...

Ira, gostei do texto/poético, valeu mesmo.

Bj