
Abortei todos os planos de infelicidade, desses de autopunição que não curam merda nenhuma de culpa e só impedem a gente de acreditar, não há razão de colecionar dores e entupir as paredes com infernos moldurados, pois todo o maior acervo não te poupa do estrangulamento da tristeza e nem traveste o diabo em santo.
Essa dor tem que ser absorvida com a porosidade da pele, depois misturada ao sangue, a cada célula viva e que o drama seja instalado onde o espírito respira. Assim, só assim ele há de vomitar o cancro e libertar a cabeça, que por sua vez há de salvar o corpo das mazelas e dos medos.
Havia em mim um altar crescido de todas as culpas do mundo. Culpa por amar, por não amar. Culpa por ser humana, por ser pedra. Culpa pelas escolhas certas e erradas. Culpa pela humanidade ora entediada, ora estúpida.
Havia esse altar de flores esdrúxulas. Um altar repleto de breu e deuses queixosos, com castigos desonestos, que esmagavam minhas asas como os homens esmagam baratas e toda massa abjeta fica exposta.
Minhas assombrações, com esporas débeis, galopavam em meu dorso impingindo-me antolhos, apenas enxergava as neuroses e os traumas, mesmo intuindo as laterais extravagantes de esperanças que os olhos ocupados não viam.
Estava embrutecendo e vivendo com retalhos, insuportáveis, da falsa piedade dos homens, de todos que apontaram o dedo em meu nariz – Louca!
Tinha que ocupar o meu lugar, aquele que fora riscado no azul, ainda que a nudez fosse minha única vestimenta e jamais, jamais alcançaria minha estrela caminhando morta.
A morte é necessária, mas sem pés, quando não há como nos seguir e morre estática, mármore. Cobre a alma com o tempo sujo e velho até queimar toda desordem psicológica e mundana e das cinzas amontoadas uma nova origem brota, ávida e forte, em beleza de águia que voa o primeiro vento e nunca mais para.
Pensava constantemente nos poetas que não suportaram a realidade, eu os amava e achava lindo morrer de poesia, talvez seus poemas quisessem se desvencilhar das mãos que os faziam melancólicos, mas não menos bonitos e se suicidavam como as águas que procuram as quedas e eu, eu queria que a poesia vivesse e tomasse conta dos meus olhos, da minha respiração.
Queria que a infelicidade fosse um pó que qualquer brisa menor soprasse longe, mas entendi em cada verter de lágrima, como entende a borboleta, que somente por ela poderia voar sem memória.
Senti com a loucura que umedece meus lábios os dias de cárcere, o tempo casulo que constrói a sabedoria e decidi que nunca é tarde pra pousar no riso e ri, sem culpa, acreditada.

