INSPIRAÇÕES DO POETA

10 de dez de 2009

Correnteza




Sou como correnteza voraz de rio e nunca passo devagar,
Não sei simplesmente, um afluente ser e desaguar e findar.
Preciso matar e morrer nas corredeiras, no talvegue mais profundo.
Sou leito espaçoso que lambe as margens, depois fecundo,
Depois do gozo oriundo da confluência, de mim, de nós.
Sou porta-voz do silêncio de um desejo veloz.
Não sou navegável nem estável, mas límpido!
Minha transparência é selvagem e meu leito oferecido.
Deito-me no solo e escorro, apenas por amor.
Pudor - jamais saboreio - exibo minha dor!
Dou-te o fundo das águas, os peixes, os cascalhos,
As correntes decorrentes dos dementes encalhos,
Que provoco, pois raso sou fundo, às vezes intervalo.
Dou-te a travessia, com risco de naufrágio ou regalo.
És pequenino e mais nada, não rapta nem absolve,
Mas veste a farsa de um corsário e envolve.
Não subestime a nascente! Enquanto mentes, ela ressente.
Sente o fluxo e o refluxo nas águas videntes.
Desconhecerás o sabor de minha boca homicida,
Nunca meus olhos nem minha medida.
Uma tímida brisa no ouvido é tudo e nada mais.
Sinto muito, mas desbravar meu rio, jamais!

6 comentários:

Úrsula Avner disse...

Oi amiga, sua intimidade com as palavras é mesmo notável ! Belas metáforas num arranjo poético melodioso, profundo , encantador e de grande qualidade literária. Lindo mesmo ! Bj com carinho.

Márcio Kindermann disse...

Então é assim ó... de repente me senti reflexo ou refletido se preferir, num texto encantador, profundo e perigoso. Cara definitivamente quando crescer quero ser igualzinho a voce....rsrsrsrs
Amo tuas palavras, tua maneira de desnudar a existencia como se nada fosse!
Sem medo de plagiar:
Não sou navegável nem estável, mas límpido!
Estarei eu no mesmo rio?
Obrigado pelo SEMPRE carinho.
Bj++++ão meu
MK

Márcio Kindermann disse...

Eu digo, sem medo de plagiar(voce):
Não sou navegável nem estável, mas límpido!
++++ bj
MK

Paulo Tamburro disse...

IRA BUSCACIO,que poemaço.Muito bom.

Para variar, né?

Agora,minha dileta e competente amiga,IRA BUSCACIO, certas afirmações, as vejo com um pouco de pejo, acanhamento...dúvida, como a que fêz,em momento de rara inspiração, sentimento e descontrolada emoção, o que por sí só já a absolve...:

"Sinto muito, mas desbravar meu rio, jamais".

Não sei não, e sabes a razão IRA BUSCACIO?

É porque nenhum rio é o mesmo, apesar das suas águas sempre passarem pelo mesmo lugar.

Por isso, tudo muda com ele, e ninguém vai morrer de tédio , muito menos por amor, e por mais que você torça, e por mais que todos se esforcem para concordar, a vida tem que continuar .

E se é assim, por que não com ...ele?

Lembrei-me agora da música de Chico Buarque, Folhetim:

"Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim..."

Sei não IRA BUSCACIO, já dizia o velho adágio popular :

-"Água de morro abaixo, fogo de morro acima e mulher quando quer AMAR - é esse mesmo o verbo(rs) - ninguém segura!

E ainda mais, sendo você deste bendito outro RIO o de JANEIRO, com sol, mar, cheiro de maresia e sensualidade no ar por todos os cantos dos seus encantos,como garantir IRA BUSCACIO, esta determinação para a inviolabilidade, quando é você mesma quem confessa com sofreguidão e gostinho de quero- mais:

-"Sou leito espaçoso que lambe as margens, depois fecundo,
Depois do gozo oriundo da confluência, de mim, de nós."

Sei não IRA BUSCACIO, sei não!

Um caudalhoso abraço carioca.

Úrsula Avner disse...

Oi Ira, voltei para lhe dizer que há um convite esperando por você lá no Sempre Poesia. Te aguardo. Bj.

. disse...

André agui.
"correnteza" muito bom esse texto!
bj até +