INSPIRAÇÕES DO POETA

3 de jul de 2010

Superfície




Ele me amou com tanta superficialidade, que não me encontrou. Eu que estava ao alcance de seus olhos, se olhos silenciosos tivesse, que bastaria uma respiração, sem a fronte do despotismo, para descobrir-me translúcida, mas não!
Tinha olhos duros e prolixos, que só acreditavam na lógica e no exterior das coisas. Eu estava logo ali! Dentro de mim, tão incoerente e fácil de sentir, como o vento.
Ele só sabia exigir! Exigiu-me ser outra, outro ideal e de exigências em exigências, não me viu.
Sem resistência, me dispunha a teoria e a prática de amá-lo, não sem abismos e com fleuma, como é o dever do amor, mas não poderia afiançar-lhe felicidade infindável, pois esta anda sempre a debater-se entre os maus e os bons tempos.
Seria necessário um incansável virar de páginas e continuar a escrever o poema, feito o poeta que suspeita da palavra, mas há o desembestar dos sentimentos, então ele dá-se e crê no que inventou.
Era melancólico vê-lo empunhar a espada e degolar minha escolha, por ele, como alguém sem culpas, como se não tivesse o corpo marcado por sanguessugas. Feridas que nunca cicatrizariam!
Sacrificava minha ingênua essência, por ser um tirano receoso da pureza que desconhecia. Estava nua, diante dele, quando me vestiu com restos do seu passado imprimindo-me suas obscuras convulsões.
Não, que eu não tivesse defeitos, que não errasse e que não fosse teimosa, às vezes inconseqüente, mas quase sempre incompreendida. É que só sabia amar e tentar ser poeta, um dia.
Eu só queria ser a menina que mora dentro, que me desperta todas as manhãs dessa primavera perenal, pra pertencer a ele e nessa condição dar-lhe um coração moleque, muitas vezes impulsivo.
Ao entardecer, já mulher, sem tanto juízo, em nome da paixão dar-lhe-ia meu corpo, desvairado farejando seu sexo, e obscenamente tirar-lhe-ia todos os ais.
Quando madrugada, a menina e a mulher congregar-se-iam em mim, ainda pertencida. Derramaria essa alma, minha, que se recusa a morrer e maior que eu mesma, nos braços dele seria tão somente por ele.
Ah, Deus, por que vós criastes os homens de outro barro, que não o nosso e tão aturado? Ao menos desse a eles, dois olhos descortinados, pra que pudessem ver além dos seus próprios pecados.
Ele não me encontrou, porque não sabia sentir e assim, jamais poderia me ver.

5 comentários:

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá amiga! Maravilhoso texto. Profundo e dotado de muita sensualidade.

Beijos e ótima semana pra ti.

Furtado.

Jacson Faller disse...

"Ele não me encontrou, porque não sabia sentir e assim, jamais poderia me ver."

Genial!

Uma ótima semana, Buscacio. Abraço, Jacson.

Márcio Kindermann disse...

Extasiado, assim fico a cada texto seu que leio...
Amo tu, cara!
Bj meu
mk

Fulvio Ribeiro disse...

Olá tudo muito Bom aqui!!!
É por essas que prefiro sentir...
Ótimo, gostei muito Parabens.
Grande Abraço.

Emerson Cardoso Nascimento disse...

parece um caminho como vc mesmo se descreve... uma das faces entre a vida e a morte... e entre tudo isso o amor... texto denso e lindo! parabens... obrigado pela visita tbm! bom encontrar mais um espaço como esse q vc criou! abç