INSPIRAÇÕES DO POETA

18 de out de 2010

Faces e Fases





Quando triste sou cidadela assombrada de vielas feridas, onde se escuta lamento de guitar ao fundo e um blues recolhe a dor. Há em cada acorde, dedos com grandes unhas e nacos de coração, que é meu, de poeta, que aos poucos regenera, como se dançassem no gueto.

Quando alegre sou biblioteca sonora, onde poemas nascem megafônicos, com fidelidade aguda e querem correr como meninos pipas. Há em cada rabiola colorida desejos livres de céu azul, de bem querer cotidiano, sem compreensão e punho, apenas pele ao vento ameno.

Quando caio sou cigarro no canto da boca e tragos de rum com coca-cola, essa porra de medo assustado e vago que vicia a língua em fel. Há em cada dose um pedido de socorro, um quase morto que quer abraço de árvore, desses com raízes sem vergonhas que invadem.

Quando levanto sou poeira de bunda sacodida nas caras dos maus sujeitos e rôo ossos com habilidade, sem culpa sou cachorro de rua. Há em cada tutano que como, um soco no estômago, essa porrada é meu levante e fico afiada, que nem faca. Abro a guarda, mas um anjo, sempre me beija a cara.

Quando ignoro sou porta fechada, sem cadeado, apenas encostada, o que entra e sai não incomoda aos que não vêem almas penadas. Há em cada fresta uma indiferença habitada de nenhum sentimento, como um telefone que toca, sem parar, a um ouvido surdo, como fio partido e mudo.

Quando desejo sou organdi transparente, consistente, de acabamento leve. Primeira pele de serpente que se enrosca na presa e a devora lentamente. Há em cada veneno um ungüento pra aliviar a morte que não mata, silenciosamente, se arrasta no tempo. Tesão de cobra criada.

Quando ódio sou boca do lixo, suja, demônio de saia rodada, que desce o barranco com lata d’agua no ombro, mas não relo mão em chiqueiro. Há em cada cilada um porco que merece forno, mas prefiro o esquecimento e ponho os pratos na mesa e de sobremesa, doce de ira.

Quando amor sou mergulhador sem escafandro no fundo do oceano escuro e me deleito com o mistério dessa amplitude voraz. Há em cada mergulho uma dádiva, baby e benditas sejam as correntes marítimas do meu bem querer. Meu canto de sereia ateia fogo nas águas.

15 comentários:

Kátia disse...

Oi querida!!
Passando para te desejar uma semana
encantadora. Mil beijos queridooonaaa!!!!

Lila disse...

....pois é exatamente assim e em cada sentimento que aflora, és inteira e corajosa... intensidade e fortaleza... por isso SOMOS....rs

Bjs meus !

SANDRA disse...

Ira,

Amei teu Blog!
Que lugar mais charmoso e lindo!
Já sou tua seguidora!
Obrigada por estares me segundo, foi um grande prazer!

Um beijinhooooooo

meus instantes e momentos disse...

que bom teu texto.
"rabiolas coloridas libertas no ceu..."
parabens , muito bom tudo aqui, muito bom.
Maurizio

Antonio José Rodrigues disse...

Quem se atreveria a comer a sobremesa doce de Ira, depois que ela tirou os prantos da mesa? Os prantos, Ira, vc colocou neste poema e a sobremesa deliciosa é lê-lo. Beijos

Marcelo R. Rezende disse...

E quando poeta você é todas numa só, sem assustar, só se mostrar. Se mostrando.
Gostoso quem consegue explorar tudo que é possível e bom pra si.
Ah, Ira, redundância minha mas é tudo lindo.

Beijo de filhote.

Costea disse...

Em nosso país esse tipo de poesia é chamada de simbolismo.

Franck disse...

Cada poema/texto seu me descubro cada vez mais neles... E quero ser cigarro, biblioteca, cidadela, pipas, tudo!
Bjs*

CANELAFINA disse...

Me deixastes arrepiado ao ler este poema.Fiquei feliz com sua visita no blog
bjs
eduardo

Sil.. disse...

Ira,

E como você le assim, a alma da gente.
Tão euuuuuuuuuuu rs.
Queria ter esse DOM de colocar as palavras pra fora dum jeito assim, tão transparente.

linda- mente!

Adoro-te!

beijoooooooo

Phivos Nicolaides disse...

Oi querida aniga Ira. O que um bom artigo. Eu amo o seu blog. Bjs

Érica disse...

Você é Ira!
palavras e mais palvras, as vezes me perco, penso, rodopio, volto ao início do meu tormento, tentando fazer o impossível, te definir numa palvra... acho que é pele, que transpira aqui, pura e limpa que exala cheiro de ser simplemente mulher.

muitos abraços e beijos, só suficiente pra ir à lua

Rob Novak disse...

Abrir a guarda e recebr um beijo na cara. Um golpe que pulula vida, destinado, apenas, a quem se atreve a se desarmar.

Ótimo texto! Seus momentos de autodescrição se apresentam sempre com grande poesia e vida.

Bjs

Paula Figueiredo disse...

Lindo poema! Que escrita forte, de enorme auto aceitação. Adoro aquilo que quase nos abarca toda.
Obrigada pela visita. Abraço!
E vamos confiar na vida! :)

Saulo Taveira disse...

Moça, que escândalo. Tantas numa só, feito fases da lua. Os sentidos sentimentos te tomam e te faz inteira a cada instante. És tudo, és nada.
Fico impressionado com tua capacidade de definição.

Beijos.