INSPIRAÇÕES DO POETA

10 de out de 2010

Incinerador




Sabe aquela camisa azul que você gosta tanto?
Aquela que tem seu suor de homem empoçado na gola?
Aquela, com furinho na lateral, que roubei pra me abraçar sem braços na insônia de merda e sem saída, de um desejo sem cura?
Não! Juro, que não fiz bruxaria.
Só não queria deitar sozinha e ficar lendo um romance, desses cretinos, que poderia ser nosso, mas nunca seria, porque é tudo tão inglório e perfeito demais.
Nosso amor tem literatura mais odiosa e cheia de vícios incontáveis.
Precisava ter a certeza que não tentaria o suicídio no avesso da noite, por isso roubei meu bote salva-vidas, a camisa azul era o meu CVV (centro de valorização da vida).
E me matar com as mãos sujas de azul seria bandeira demais, por mais que te amasse, eu jamais te deixaria esse triunfo.
Sou foda, carne de pescoço mesmo, a médio vidente disse que é minha Iansã, por isso não deixo barato. Corto os pulsos, mas não assino embaixo.
Nunca contei, mas escondi a camisa na primeira gaveta da cômoda, quando você sujo de amor falou tenor: vou mijar!
Adorava essas suas características broncas de macho e mijar era sensual e selvagem. Fazia-me sentir mulherzinha e eu forjava fragilidade pro nosso gosto.
Os dias foram galopando e a camisa acabou esquecida. Você nem notou e havia outras, menos ou mais azuis.
Eu era uma pedinte de retalhos e pensei em tudo que poderia ter, de meu e real, além do desejo... “Uma camisa, sem corpo, sem alma, apenas com o sal de homem que se ama”.
Olha amor! Essa noite foi confusa, eu dormi com seu cheiro entre as pernas e sobrevivi.
Cedo peguei a camisa e lavei com amaciante, do mais caro, depois de seca dobrei-a com o fervor das ninfas dos oráculos.
Guardei-a na caixa dourada com um laço esquizofrênico vermelho, até amarelar.
Outra idéia, me pareceu mais dourada.
Não foi por acaso, mas o seu cheiro desceu pelo ralo.
Queimei no ferro a camisa, agora passa aqui e pega os seus restos incinerados.

22 comentários:

Fred Caju disse...

Encantador. Lirismo cheio de palavras sem lirismo. Ou seja, cada palavra guarda um potencial para ser bem utilizado.

Angelo Augusto Paula do Nascimento disse...

Forte... As coisas que precisamos e não precisamos mais. A faxina interna necessária. Seguir em frente. Forte... Verdadeiro. Há quem tenha outras camisas.
Bjs

F. Otavio M. Silva disse...

nem tenho muito oq comentar.. muito feminino, mas mesmo assim é muito profundo. ^^

Saulo Taveira disse...

Adoro os símbolos desse texto. A camisa azul e o amor vermelho paixão.
Maravilhoso moça.

Beijos. Boa semana procê.

Lily disse...

IRA,

Que texto forte, um manual de como jogar no incinerador, homem que mija, camisa azul suada e laços esquizofrênicos.

Gostei muito.

Beijos!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ira
que jeito tão feminino de contar a agonia e morte do amor.
E que jeito ótimo de dizer pro outro que acabou...virou cinza!
Muito bom!

Daniel disse...

Muy buen sitio. Te felicito y saludos desde Argentina

Edson disse...

Belo e intenso. Franco e simples. Clareza e obscura ao mesmo tempo.Sentimentos tão adversos que nos confunde entre amar e odiar simultaneamente. Gostei!

Marcelo R. Rezende disse...

Ira,
só sei que escrevi aquilo e depois li... e então tive a certeza de que era seu.

Quanto ao texto de hoje, ah, que delícia. Há pouco li, de novo, O Silêncio dos Amantes e me lembrou basttante: na dor e na vida.

Beijo!

Érica disse...

Ira... me sinto no direito de falar rsrs... você é foda!
ira de mulher
ira de desejo
terrivelmente Iraaaaaa!
se toda mulher escrevesse a palavra "mijar" com toda a sua elegância, o mundo estava salvo de panacas!

ai que orgulho de ser sua adotada!

muitos milhões de beijos

AC disse...

Você é fogo!
Mas, sabe, ainda bem que há gente assim, que ama ou tira desaforo de forma intensa. A vida é para ser vivida, ó se é!

beijo :)

Franck disse...

Só pude vim aqui agora, quase noite... Que texto forte, algumas vezes pensei em queimar camisas, cartas, lembranças...
Bjs*

Olívia Comparato disse...

Incrível desfecho! Supreendente, inesperado.
Bj grande

Carolina disse...

Cara Ira, apesar de ser de Aquário voce e fogo puro!
Essa camisa azul é um fetiche real...
Un fuerte abrazo e boa semana.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Queimei no ferro a camisa, agora passa aqui e pega os seus restos incinerados.

Geralmente quando o amor é muito forte, a mulher age dessa forma para evitar qualquer coisa que lhe possa avivar as lembranças. Belo texto.

Beijos e ótima semana pra ti.

Furtado.

Suedivaldo disse...

Oi Ira, Tudo bem?
Que bacana esse seu blog, muito interessante,seus poemas são lindos. Parabéns pelo Blog e pelos Poemas. Vou continua acompanhando seus poemas, pois já tou seguindo já. Segue o meu lá também, tem um trabalho bem bacana.

http://galeriadephotoos.blogspot.com/

Saudações, Abraço!

Suedivaldo

Phivos Nicolaides disse...

Me parece interessante. Eu gostaria de poder lê-lo. Bjs

Juliana Carla disse...

Ira,

Por isso que gosto de ler romances espíritas. É sem ilusão. O último que li se chama “Ninguém é de ninguém”. Oie! O tema se encaixa ligeiramente aqui. :-)

Se você fizesse um livro (caso não tenha feito ainda) daria um xerox ou coisa do tipo na “vida como ela é”.

Que atitude! Uhuu! Também já queimei camisas por aí.

Bjuxxx e xerooo

Athila Goyaz disse...

é um soco na cara!
Perfeito! :)
bjão!

| A.Luiz.D | disse...

Olá Ira, rsrs

Determinismo, de forma alguma, isso é pra quem brinca com origamis, e mesmo se fosse na versao indigena (rs).
E so uma pitada de ecologia,nada influenciavel, só uma interação, desatando aqueles nós, sem idealizações ingênuas.

Carne de pescoço
dias galopando
camisa sem corpo
laço esquisofrênico
pedinde de retalhos

vc é maravilhosa!

bjos

Márcio Kindermann disse...

Ira, que maneira delicada de detonar um amor... ferro e brasa!
Somente vc pra buscar equilibrio nesse fio que dança a tortura.
bj meu

Marcio Nicolau disse...

poema atitude.

Gosto bastante.