INSPIRAÇÕES DO POETA

28 de abr de 2011

Quando a Lua Deveria Ser Pra Sempre Cheia




Quantas vezes, na ressaca da dor, eu excomunguei os amores amados e atirei-os da ponte Rio-Nitéroi, no vão maior, mas bastava olhar pra mim, um cômodo vazio, que corria a salvar aqueles corpos xingados e odiados, que sempre tinham argumentos eficientes: O crepúsculo visto de dentro dos braços!
Massagem cardíaca com duas mãos de fogo e respiração boca a boca pra ressuscitar aqueles tratores impiedosos, um esforço e tanto pra peito apertado, mas eles sabiam ver a lua mais cheia, a lua dos uivos e eram lobos. Eu precisava das luas inteiras, aquelas que me enchessem os olhos de convicções. Promessa de coisa pra sempre, como a eternidade do beijo de língua.
Dane-se que os romances fossem de quinta e eu os colorisse de Drummond, com morangos e sedas, os monstros eram meus e eu os recriava de forma generosa e conveniente, para que as mãos pudessem se entrelaçar nos bares, nos cinemas, nas calçadas. Essa adorável invencionice de mulher que mistura sexo e amor.
Acontece que sempre achei bonito um homem levando uma mulher pela mão, acho que tem dignidade essa paisagem, mesmo sabendo que escarafunchando as gavetas acharia alguma sordidez, poeira.
E daí, que de súbito levasse um soco no estômago, quando descobrisse as verdades escondidas, a necessidade do ser humano de inventar o amor, e morrer nele, e viver nele, e ter que sustentar essa submissão pra que se justifique a existência.
Suposições de realidade, tudo que a gente desconhece e quer desesperadamente entender, porque precisamos do sólido, da massa lúcida, mas o que verdadeiramente existe é o que se acredita.
Eu não pensava em cruezas, eu pensava em acreditar nos deuses que amavam e todos moravam em mim, só queria sentir o coração, esse órgão alucinógeno. Queria acordar na madrugada e velar o sono do amor esparramado na cama, nu e com a barba por fazer, pra de manhãzinha amar o amor e sair pra viver.
Queria essas miudezas cotidianas de chorar e de sorrir, até de sofrer, mas não sei exatamente como fui abandonando toda essa paixão, a fé de olhos que era estranha e tão poema curtinho de meninice, talvez eu tenha crescido demais junto ao cansaço, acho que esperei muito ser de alguém, mas não me deixaram, ninguém deixa, porque é feia essa intenção. É absolutamente inaceitável ser o que se é e querer doar toda essa linguagem complexa ao outro perto do mundo. A essência – verdade - é socialmente danosa.
Minha garganta foi secando e as palavras fugiram pras mãos e nunca mais voltaram à boca. O sangue foi esfriando glacialmente enquanto o coração – puta que pariu! Sujeitinho que fora anarquista - esse coitado, de surrado foi perdendo a cor e pálido entrou em coma, vida vegetativa sem sagrado.
Então, não há mais dor, a ponte esta em silêncio, sem tentativas de assassinatos, não há esperas. Há somente um livro que não foi terminado, uma solidão não assustada que me faz amiúde pensar luares.
Ah, nunca mais lua cheia?

24 comentários:

Iram M. disse...

onteceTambém amiga,sempre achei bonito um homem levando uma mulher pela mão. Fico puta quando o meu anda na minha frente ao invés do meu lado de mãos dada.
Parabéns pelas palavras mágicas deste texto. Amei!

Beijos

Lucas Nícolas™ disse...

Nossa... como sempre parece que você fala com quem lê sua poesia... sinto uma enorme inteligência nas suas palavras simples, você me conquistou com essa bela poesia! Meus sinceros parabéns! abraços...

carmen silvia presotto disse...

É, Ira," o que verdadeiramente existe é o que se acredita..." e ao te ler recordo de meu amigo imaginário, dos diálogos que com ele travo, das luas que com ele comparto, das verdades que com ele divido por não suportar tantas mentiras cruas a cruzar as pontes de nossas vidas, então amiga querida, poetemos, reinventemos uma nova lua que nos aterre aos dias que desejamos.

Beijos,

Carmen.

Zil Mar disse...

nossa....que verdadeiro!!!!

tem um pouco de todos os sentimentos que eu já senti na minha vida ai dentro...e o final é esse ....

espetacular!!!!


meu carinho!

Zil

Márcio Kindermann disse...

Cara voce é demais, até no visual....
Bj meu, seu fã eterno

helio.rocca disse...

Fala com muita propriedade de dissabores e decepções. Entretanto, vejo sempre um misto de esperança e convicção de que algo novo irá acontecer. E creia, irá mesmo. Fiz uma vez um poema sobre a Lua que postarei agora em meu comentário. Abraços fraternos:

" A mulher e a Lua"

Lua, prateada lua,
teus lábios cumprimentam
a minha alma nua.

Lua, silenciosa lua,
a viajar pela tarde
que à noite estua.

Lua, inquietante lua,
teu raio flutua
como uma sentença crua.

Nem a razão dos filósofos,
nem a paixão dos poetas,
tornarão de minha
essência o invólucro

para prender-me
à tua boca repleta,
entre a calçada e a rua.

(Helio Rocca)

Antonio José Rodrigues disse...

As pontes, Ira, mesmo que de safena, continuarão; o romantismo, vergonhosamente desbotado, naufragou no rio, ou melhor, no Rio. O vermelho do sangue na face não substitui um pedido de desculpas. O que nós, homens, estamos fazendo com os sentimentos?
Beijos de constrangimentos

cristinasiqueira disse...

Ira,

Espera um pouco preciso de ar e fôlego.

UAU!!!!!!!!!!!!MUlher!
Que assanho,esparramo!Que face!
E quando você diz;O crepúsculo visto de dentro dos braços!...que ôco apertado para se lançar o olhar.Imagens,gastura,e este "ser de alguém" que ninguém deixa.
Pois é,É.

Sua performance é FACE mutante
coragem no tempo.MARAVILHOSA!!!!!!!!!!!!!!!!!

Seu último comentário no blog cristinasiqueira foi para a página Prisma que assino no jornal da terra.
Adoro suas visitas,sua atenção.

beijos,


Cris

Carolina disse...

Este texto está buenisimo. Eu entendo que fala de sonhos, amor, esperança, frustração crescente violência e desilusão ... está tudo lá ... muito bom!

Jorge Pimenta disse...

todas as pontes foram feitas para serem cruzadas; apenas a do amor ficou por terminar. como aquele livro onde depusemos todos os sonhos e quimeras mas a que faltaram a mão de quem o quis fecundar e os olhos de quem o não quis ler.
esta semana, por razões profissionais, retomei a leitura de "os lusíadas", de camões. no episódio de inês de castro, há uma estância que invoca o amor como causa maior dos males daqueles que adoecem pela maleita que anacroniza a felicidade. para ti, querida amiga:

"Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano."

beijinho imenso!

Sandra disse...

Uau Ira! Portentoso este texto! Muito forte e intenso.
É muito bom ler-te!
Cuidado que a lua pode ser traiçoeira !
Beijinhos querida

Dilmar Gomes disse...

Amiga escritora Ira, estou passando por aqui para apreciar a tua escrita, deixar-te o meu abraço e desejar-te um bom finds.

Machado de Carlos disse...

A Lua é a razão dos grandes sonhadores. Quando o amor chega, não raro esquecemos-nos dos pequenos detalhes. Os pequenos detalhes, muita vez fazem a diferença. Precisamos disso. Faz parte do amor.
Beijos!...

♥♥♥Ani♥♥♥ - Cristal disse...

Que lindo...


A vida é feita de momentos...
E estar aqui está sendo um momento especial...
Voltarei sempre que puder...
Se quiser, dá uma passadinha no meu também...
Quem sabe não gosta e fica.... E com certeza retribuirei a gentileza.

http://cristalssp.blogspot.com

Beijos 

Ani

taio disse...

excelente post

Luciano Martini disse...

Assistir o crepúsculo dentro dos teus braços. Linda imagem.

AC disse...

Ira,
Ler o que escreve é perfeita maravilha. Expõe-se, arranha-se, olha para dentro de si, rejeita, procura, bebe um copo, olha, perde-se, encontra-se...
Lá no fundo, contudo (e adorei isso) ainda pensa luares...
Já uma vez lhe disse, mas repito: mulher inteira, é o que você é!

Beijo :)

♪ Sil disse...

Incrivel como você detalha sentimentos tão nosso Ira..

Não tem não ler e se ver nessa história, em algum lugar de nossas vidas....
Você fala, a gente cala...

Lindo, lindoooooooo!

Amada, seu email é esse que tá no seu perfil do blog?
Vou te escrever, fui no meu médico... (Tá F..)

Um beijooo!

Te quero bem demais!!

Tuca Zamagna disse...

Vai, maltrata a gente, esmigalha-nos a todos com suas delicadezas, poeta do coração alucinógeno!

Beijos

La sonrisa de Hiperión disse...

Como siempre amiga, un placer haber pasado de nuevo por tu casa. Genial.

Saludos y un abrazo.

Brasil Desnudo disse...

Olá, minha querida Amiga Ira!

A Lua Cheia, para mim feflete algo mais, do que somente a vontade e o prazer de amar!

E por coincidência, essa é a única época do ano onde a Lua, vista da Pedra do Arpoador, nasce gigantescamente, brotando de dentro do mar, vagarosamente, em seu tom laranja.
Quando totalmente nascida, cheia, gigante, flutuando ainda sobre o mar, o espetáculo é único, refletindo a luminosidade sobre a água.

Vale a pena conferir minha amiga, pois é nessa época, entre o fim de abril e meados de maio que esse fenômeno acontece.

Bjs em seu coração e, um ótimo domingo pra ti, cheio de paz e amor.

Marcio RJ

Lauro C. Pedot disse...

Você é brilhante. Ira!, De um punhado de letras frias e sem vida, Ira, você faz uma Pietá! Verdade!
Boa sorte!

O Profeta disse...

Fiz magia com todas as cores que tinha
Fiz aparecer na tela um tocador
Pintei-lhe um violoncelo a preceito
Mas ele não sabia tocar uma música de amor…

O amor nunca acontece sem amor
Esta coisa do amor será fantasia?
Será uma noite vestida de nostalgia?
Será planta envergonhada que floresce ao fim do dia?

Seja o que for, tem o nome de amor
Acho bem que seja assim
Há quem diga que se enraíza para sempre
E floresce como planta de alecrim


Terno beijo

El Brujo - Rock disse...

Perdido aqui no teu luar!