INSPIRAÇÕES DO POETA

9 de mai de 2011

Canto do Último Crepúsculo




Andei sob a lua, caminhos de ontem e de amanhã, minha sombra crescia, crescia! Após todos os andares de passos disformes nas estreitadas vielas, após exauri-me mínima, eu tombo a boca da sombra que me devora nos caminhos de hoje.
Vejo os trabalhadores, da cinza fábrica de poeira, com suas mandíbulas cerradas trocando passos em direção ao aço que lhes pesa ombros e pulmões.
A maioria deixa a esperança queimar nas caldeiras e é pai de criança sem livro, marido coberto de lençol e porre, um corpo de cansaço longe da alma.
Homens de silêncios mudos e mãos sem memórias, mestres da rotina opaca que os arrasta sem canções silvestres até minha comoção híbrida, como nos palcos, a tragicomédia.
Ah, que consolo apaga uma condenação?
De certo, espíritos insones!
Vou esvaziando os bolsos de juventude e comendo bombons de chocolate que cutucam meu cérebro excitando-os a uma paz de mantra, como os alívios da pele sem calcinhas tensionadas nas carnes, não tenho mais receios dos cabelos embranquecidos.
Que seja esse meu destino! De encolher ossos, de amolecer a carne e de encarquilhamento epidérmico, sem macular os sonhos, essas grandes viagens feitas a existirem nos olhos.
Viverei o que me é intransferível, a liberdade!
Quero ser a mulher inofensiva e essencial, com o rosto brando de rugas e signos do tempo, os peitos derrocados das tantas guerras, a musculatura flácida de realidades, com a consciência de existir absolutamente nítida da verdade e do rebanho de amor deitado nas mãos que se fizeram fraternas.
Gritam-me: Quem há de querer um coração embrulhado em trapos, senão a poesia?
Não ouço gritos, meus ouvidos foram feitos para os sussurros, digo em sorrisos!
Que os poemas me sejam dados por esmolas, pois comerei meu pão.
Que gente é essa movida a buçanhas, paus e vil metal?
Não sabem que todos os ocasos estão por desprezarem a humanidade e jamais haverá um crepúsculo se quer a testemunhar suas obsessões hediondas.
Todos os culhões caírão estéreis sobre o chão, as bucetas secarão como flores murchas e o metal será derretido e engolido pelas bocas da terra.
A escuridão rangerá seus dentes sujos!
Um tempo de desamor cobre nossos rostos e os falastrões não possuem coluna vertebral, apenas mil braços e rabo grande que arrastam nos cofres como anônimos.
Ai de ti, amor que ilumina essas civilizações insinceras! Não há como escapar do espancamento diário e dos interesses megalômanos.
Ah, tenho dó das minhas vigílias no mundo de fora, onde há uma enorme fila de gente que aguarda a embarcação furada.

19 comentários:

A. Reiffer disse...

Muito bom, muito bem escrito! Parabéns! Abraços!

helio.rocca disse...

Um texo muito realista. Mas, não seria a realidade isso mesmo. Temos então que mudá-la ? Creio que sim, mas como, de que maneira? Acredito que há um incosciente coletivo que evolui incansavelmente, se não fosse, estaríamos ainda nas cavernas. Belo texto Ira, não posso mais ficar comentando seus escritos, são muito bem produzidos, não há o que criticar. Parabéns!

Malu disse...

Um texto marcado pela realidade cotidiana...
Belo, Ira!
Um grande abraço

carmen silvia presotto disse...

Hey Ira: "Quem há de querer um coração embrulhado em trapos, senão a poesia?"

colo para dizer aqui que seguireoi com esta pergunta em resposta a todas minhas inquietudes, que bom entrar aqui e começar a semana com tuas crônicas.

Beijo, gracia por mais escrito e seguimos!

Carmen.

Nilson Barcelli disse...


Vou esvaziando os bolsos de juventude e comendo bombons de chocolate que cutucam meu cérebro excitando-os a uma paz de mantra, como os alívios da pele sem calcinhas tensionadas nas carnes, não tenho mais receios dos cabelos embranquecidos.

Gosto do teu esvaziar de bolsos em palavras e do teu cutucar... ainda que me distraia nas tuas tatuagens... e gostei muito do teu texto. FABULOSO.
Beijos, minha querida amiga Ira.

Iram M. disse...

Ah, tenho dó do meu sumico necessário dos fins de semana, pois com ele perco as maravilhas do mundo desconhecido, mas que já conheco bem pra sentir a essencia da minha amiga Ira, neste poema.
Beijos amiga

Dilmar Gomes disse...

Bravissima amiga Ira, grande poema. Tu desconstróis, para usar um vocábulo da moda, para resconstruires. Belo trabalho com a palavra.
Um grande abraço.

Machado de Carlos disse...

Ira,

Realmente você possui a face da poetisa. Consegue visualizar a lua sempre, ou seja, não há tempo para isso: - nem ontem e nem amanhã.
Grande poetisa adoro ler você mesmo estando entre cinzas ou pós de aços puros. Eu sei, a alma desaparece com a presença etílica; transformando o mundo num só palco. O seu poema é a nossa vida, sigamo-los como manda o nosso destino. E vamos nos fartar de poesia como se fora um pedaço do seu pão. Degustá-lo é incrível!
Beijos!...
Tudo de bom para você!

Fulvio Ribeiro disse...

Ira, minha Amiga...

Que saudades de passear por aqui
Tudo sempre muito bom...
Grande Abraço.

Sonhadora disse...

Minha querida

Como sempre de uma beleza e profundidade sem freios, sem rédeas...apenas os dedos afagando as palavras onde se descreve a humanidade tão descrente e onde se escreve a MULHER.
Adorei como sempre e deixo o meu beijinho cheio de carinho e admiração.

Sonhadora

♪ Sil disse...

Ira,

Também tenho dó das minhas vigilias no mundo de fora.

Ahhh, tenho!!

Um abraço do tamanho do mar minha linda!

- Metade adorada de mim -

Jehnny disse...

Belíssimo conto.
Seu blog está impecável, muito lindo *-*

Tenha uma linda semana florzinha...
Beijo

meus instantes e momentos disse...

um pouco Dali, Buñuel, Miró. Um pouco sonho, pesadelo, loucura.
um pouco susto, medo, panico.
um pouco muito....
Maurizio

| A.Luiz.D | disse...

Ira,

E essa realidade quase Umbral..?

gostei.

Não ouço gritos, meus ouvidos foram feitos para os sussurros, digo em sorrisos!
Perfeito!!!

Todo o meu bem querer...gosto muito..bjs

Márcio Kindermann disse...

Cara que louco, meio que transcende a realidade e marcha para um surrealismo que cai no real... não será esse um retrado da vida/homem? Ficarei a pensar...
Bj meu

Sandra Botelho disse...

E o mundo ainda não aprendeu a sublime magia de amar, de viver...
beijos achocolatados

Antonio José Rodrigues disse...

Pois é, Ira, ao pó retornaremos. Afinal, tudo não passa de ilusões terráqueas. Beijos

Chico Mário Feitosa disse...

Ói eu aqui dinovo, xaxando... Tocante, porém forte. Assim como deve ser vc.
abcs.

Lily disse...

O sombrio grita para nós, não é? Ele grita, mas nós somos luz e falamos baixo, caminhamos serenos, buscamos o firmamento, o horizonte azul, mesmo que aos tropeços e com a pele rasgada, velha, enrugada. Somos celestiais! E, ponto.

Beijos,

Suzana/LILY