INSPIRAÇÕES DO POETA

31 de mai de 2011

Vitrines Para Manequins Com Almas Penadas




Qual será o destino dessa calçada que agoniza ao sol, quando a boca da noite emudecer os passos?
Tantos são os pés que se multiplicam!
Tantos pés pobres e deselegantes, cheios de disciplinas e joanetes, que aos esbarrões empenham-se em cumprir seus papéis honestos, enquanto nas alturas, os nobres tendões afinados em seus desdéns nada sabem de chão.
Fato! Somente as cabeças baixas e os pombos conhecem os bueiros, o som dos ratos conspiradores que aguardam a hora escura de morderem os podres.
Sabem das poças de água quase turva, um ou outro reflexo de alma espremida, e é na sarjeta onde há espelhos de chuva acumulada que esses pequenos vislumbram céu e estrelas.
Dizem-me cruel quando enalteço as máculas, os desesperos dos olhos colados nas vitrines sem que possam atravessá-las, homens-peixes desejosos das mil iscas dos homens-pesqueiros, mas como posso tolerar esse estupor catatônico, mortes programadas com juros, sem ao menos pichar as paredes de sentimentos exigentes!
Há um senhor que mora nessas dependências, sem tetos e interruptores, ele me acompanha desde a primeira esquina contando às raivas que não cabem nos dedos, mas suas raivas são assustadas e frágeis que mal existem em pé.
Ouço seu canto melancólico repleto de idosas palmeiras sacrificadas, refrão repetitivo das aves sem céu, ele tão voz comprida e lenta cabe inteiro em meus sentires de hoje, o que quero não pensar e sinto mais que os ouvidos.
Então aperto seu ombro consentindo que me fira a cabeça e o peito, assim ele me conta dos outdoors com os pudores a mostra, todos exibindo uma beleza assassina, onde homens e mulheres são acorrentados pelas pupilas dilatadas e perdem seus íntimos.
Fala de coisas que existiu nos dias jovens, como a menina de cabelo inocente que tocava a nuvem no impulso do balanço, meras coisas de orgulho que jazem sob as grandes lojas e suas ditas coleções de modismos efêmeros.
Eu o convido a sorrir timidamente, talvez tentando um carinho que o proporcionasse sombra de grande mangueira, ele agradece com assovio molhado de samba e parte ensaiando versos de Lupicínio. Ah, esses moços, se soubessem o que eu sei...
O crepúsculo faz ônibus e carros amontoarem-se no asfalto, ambos abastecidos de tráfego e gente, um destino de envenenamento pouco perceptível.
E aquela rua, aos poucos, se desfaz do congestionamento humano, das máquinas civilizadas e dos magazines recheados de etiquetas que cerram suas portas em bocejos soníferos.
Caí à noite breu, de assuntos não tão católicos, e a calçada tépida recebe as sombras dos que nunca morrem jamais, os impuros de Dionísio.
Homens e mulheres de volúpias e compaixões arrastam suas correntes por toda madrugada, sem queixumes e desprezados, em favor de uma humanidade que os rechaçam na luz.
Ah, miseráveis notívagos! Simpatizo-me com suas imperfeições, pois elas me arremessam a realidade da natureza humana mais crua, o barro.
Eu, iconoclasta, triste e proletária, com apenas uma vaga idéia de mim mesma, não serei rude com as taças dos assombrados, nem renegarei seus vinhos.
Enfim, como todas as veias são feitas de sangue e cada um ser possui peito ermo, eu repudio as vozes dessa hipócrita decadência diurna disfarçada de elegância, na calçada sem destino de todos os passos

24 comentários:

Chico Mário Feitosa disse...

É muito louco entender a espécie humana como um contraste específico. É como vejo. Seria uma doença natural? Tb acho engraçado tantas formas de nos adaptarmos. Nichos e mais nichos são formados de dia e de noite para acomodar tantas dimensões da mente humana...
Quanta viajem.

Zil Mar disse...

Oi Ira...

seu texto me impressionou...vc traduz com palavras os sentimentos que muitas vezes não conseguimos mais disfarçar...

vc é um SER HUMANO SINGULAR!

meu carinho e admiração....

Zil

A.S. disse...

Querida,

Aplaudo de pé este teu belissimo texto!!!

Beijos meus,
AL

Alexandre da Fonseca disse...

LINDO TEXTO....BJS

Lily disse...

Ira,

E eu aqui, pensando em fazenda, em campo... e nem sei mais quando foi a última vez que estive em algum lugar bucólico.

Ando cansada do asfalto, da rua, da gente que por ela passa, ou nem sabe que por ela passa. Ando cansada dos saltos, da propaganda, da venda, do comércio.

Eu ando sonhando com mosteiros...

Beijos,

Suzana/LILY

Antonio José Rodrigues disse...

Na poluição visual da metrópole, Ira, desgastamos os nossos tendões em calçadas escaldantes e vemos, entorpecidos, a selva de concreto, com fachadas alegres que escondem, através do olho mágico de fechaduras, angústia, tristeza e aparências. Beijos

carmen silvia presotto disse...

Um beijo hoje converso com um poema de Sylvia Plath, que a tua crônica me lembrou:

Os Manequins de Munique - Sylvia Plath
Os manequins de Munique


A perfeição é terrível, não pode ter filho.
Fria como a respiração da neve, põe um tampão no útero


Onde os teixos sopram como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida

A libertar as suas luas, mês após mês, sem nenhum objectivo.
O fluxo do sangue é o fluxo do amor,


O sacrifício absoluto.
Quer dizer: não há outro ídolo senão eu,


Eu e tu.
Assim, no seu sulfuroso encanto, nos seus sorrisos


Estes manequins dormitam esta noite
Em Munique, a morgue que fica entre Paris e Roma,


Nus e carecas nos seus casacos de pele,
Chupa-chupas de laranja em pauzinhos de prata

Intoleráveis, ocas cabeças.
A neve deixa cair os seus bocados de escuridão,


Não se vê ninguém. Nos hotéis
Mãos estarão a pôr os sapatos


À porta dos quartos para que os engraxem com carbono
Neles hão-de amanhã entrar enormes pés.


Ó a domesticidade destas montras,
As rendas de bebé, as folhas verdes de açúcar,


Alemães toscos a passar pelo sono metidos nos seus stolz largos.
E os telefones pretos no descanso

A brilhar
A brilhar e a digerir
Emudecidos. A neve não tem voz.


Sylvia Plath in Ariel - tradução de Maria Fernanda Borges

Beijos,

Carmen.

Analuz disse...

Impressionante observação do cotidiano, Ira brilhante!

Beijinho admirado!

Brasil Desnudo disse...

Oi, minha querida Ira!

Tô sabendo que muitos blogs entraram em parafuso total, pois ao visitar e postar, via os comentários, aliás! Reclamações!!

Mas o Desnudo afia o tema, onde retrata nua e crua, a realidade do que vivênciamos "Passado, Presente e, o Futuro ainda incerto"
Essa passagem do seu seu post - "Tantos pés pobres e deselegantes, cheios de disciplinas e joanetes, que aos esbarrões empenham-se em cumprir seus papéis honestos, enquanto nas alturas, os nobres tendões afinados em seus desdéns nada sabem de chão." reforça a realidade nua e crua, sem sabermos de fato quem somos nós!

Também estava com saudades de ti, minha querida Ira. Mas tinha chegado de viagem no domingo, mas acabei viajando na segunda para SP, pois dois cenários que serão montados, tiveram alterações, daí minha viagem repentina...
Um noite maravilhosa, Vovó babona..kkkk
Tão bom um baby novo em nossas vidas, não?

Bjs minha querida

Marcio RJ

Marcelo R. Rezende disse...

Esses que passos que não são nossos, são dos e para os outros, que a gente tece sem perceber que faz teatro pra society. Pífio.


Beijo, Ira!

Malu disse...

Pois viajei pelo teu texto lembrando da eterna canção do Chico Buarque - As Vitrines...
Uma sensação de tantas coisas a nos morder por dentro.
Lindo demais, amiga!!!!

♪ Sil disse...

Ira, metade querida!

Eu nem sei quando foi a última vez que estive numa vitrine, mas eu concordo contigo quando diz que:

eu repudio as vozes dessa hipócrita decadência diurna disfarçada de elegância, na calçada sem destino de todos os passos.

Eu repudio mil vezes mais.
É de uma bossalidade sem fim!

Amada, tava lendo o coments da Suzaninha, e esses dias corridos, enjoada de asfalto, carro, trânsito, contas a pagar, eu to com uma vontade tresloucada de me enfiar num mosteiro.
Só prum relax!!!!

Seus textos enfiam o dedo na ferida de muita hipocrisia, eis o fato de eu gostar de você imensamente.
Eu gosto da tua verdade Ira.
Você é um exemplo belo de ser humano!

Beijoooooooo

Dilmar Gomes disse...

Querida amiga Ira, estou passando por aqui para apreciar a arte de uma excelente escritora.
Um grande abraço. Fique com Deus.

Machado de Carlos disse...

Penso que o mundo acabou quando tudo se transformou em máquinas. Vemos automóveis, motocicletas, caixa eletrônicos, cartões, etc.
Bem lembrado por você o grande poete e compositor Lupicínio Rodrigues!
Beijos!...

► JOTA ENE ◄ disse...

ººº
Gostei particularmente desta passagem "Simpatizo-me com suas imperfeições, pois elas me arremessam a realidade da natureza humana mais crua."

Beijinho à avozinha com as tatoo's mai lindas da blogosfera, rs

Carolina disse...

Ira, você tem um olhar muito sensível, você é a voz e os que não têm voz. Dos esquecidos. O abandonados e desprotegidos. Eu me arrepio.

P. S. Quão formosa sua neta está crescendo!
É um prazer passar por aqui.
Saudações y beijossssssssss.

Elisabete Lira disse...

Seu blog é muito interessante...
Estou te seguindo.... Tenha um Lindo Dia!
Siga meus Blogs: http://cartasdeumcoracao.blogspot.com/
E http://deusemminhaalma.blogspot.com/

Phivos Nicolaides disse...

Que bela mensagem... amei sou super fã dos seus textos... Parabéns, Beijinhos

Jorge Pimenta disse...

querida amiga, impressionismo puro. a câmara de filmar capta o real filtrando-o a partir das emoções. há um poema de cesário verde (sentimento de um ocidental, dividido em quatro partes) que é, para mim, o paradigma deste real que, sendo exterior a nós, nos cabe inteirinho no peito. para ti, a primeira parte - avé-maria:

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

Sandra Botelho disse...

nessas caminhadas, vemos um mundo de passos descalços perdidos, dançantes, vivos...Lindo demais teu texto minha flor. Sou tua fã numero 1 e ainda vou escrever como tu.Beijos achocolatados

Sandra disse...

Ira
que texto brilhante! Tu arrasas.
Ah! A tua neta é linda de morrer:))
Beijo minha querida

Assis Freitas disse...

"Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo."

Passagem das horas - Fernando Pessoa



beijo

Dilmar Gomes disse...

Querida amiga Ira, belo poema-crônica. Vejo aqui um repórter-pensador traduzindo em versos a realidade das ruas da métropole. Acho que se Fernando Pessoa vivesse hoje na cidade do Rio, faria poemas semelhantes aos teus. Tu és uma excelente escritora.
Um grande abraço e um bom finds.

Úrsula Avner disse...

Oi amiga, seus textos podem formar uma bela coltânea e compor um livro literário que certamente seria um primor... Beijão.