INSPIRAÇÕES DO POETA

28 de jan de 2012

Prece Para Os Acordados




Hoje não durmo!
Não quero partir para outro dia,
Sem conhecer os mapas das manhãs que não creio.
Ter que amarrotar mais um dia, uma noite,
Como se fossem cartas de um amor do outro
Engavetar essas horas, quase íntimas, sobre tantos outros entulhos inúteis,
Fotografias nítidas de especulações,
Pedaços de terra, unha, beijo,
A fumaça do cigarro que embaça realidade,
Tudo tão inútil, quanto minha memória.

- Mas inúteis são os dias e as noites, e todos os desejos!

Inútil é essa minha vontade de ficar!
Merda, eu não gosto de me despedir de mim,
Logo, quando me acostumo a ser esta que não sou.
Não tenho medo do defunto que passa,
Mas de quem nasce amanhã.
Quero ficar nessa esquina do mundo,
Entre o sonho e a realidade,
Entre a cama e o céu de todos os homens.
Quero ser essa gente que sou agora,
Antagônica e excessiva,
E atravessar junto à alma, nosso próprio deserto.
Quero crescer em mim versos festivos,
De baile, do primeiro baile de uma vida
E rodopiar desassossegada a voz.
Quero levar o corpo de poucas vestes,
Apenas uma calcinha frouxa e camiseta branca,
No ir e vir da cozinha,
E ter a percepção do hálito de todas as mulheres que me residem,
Sempre no tempo fixo de todas as coisas provisórias,
Uma jornada extraordinária de trevas e claridades.
Quero abrir a garrafa que guarda o mar sonífero,
O canto perdido do marujo
E fechar os olhos pra vê-lo chamar meu nome.
Ver a lagartixa espantada, albina de susto,
Se resumir em ausência ao ver minha estética humana.
Talvez se pergunte antes da fuga:
Como pode existir alguém tão esquisito e feio?
Melhor beber e beber,
Essa incompletude do que sou,
Das coisas que são e das que não são
Beber até afundar essa barca lúcida confundida,
Que ronda os mares dementes, as ilhas bêbadas.
Salvem as ilhas! Salvem as ilhas!
A taça de vinho tinge minha boca de extravagâncias,
Os dentes mordem a loucura
Sei que vou morrer esta noite!
Todos os minutos deste dia perderão suas peles,
Outras peles cobrirão o tempo reconstituindo-se.
Hoje, minha vida ganhará outra face,
Meus olhos perderão impressões
No labirinto da memória.
O cansaço precipita-se, ainda não há intenção de manhã,
Só esse viver que vivo avidamente, mas o futuro espreita-me,
Como o menino que cobiça a fruta do quintal vizinho.
Nas mãos, a velocidade faz-se menor para os dizeres,
Porém, os sentimentos ultrapassam a luz
E correm estrelíssimos pelo universo.
E o universo é meu coração possível,
Que nunca dorme
Eu abandono o caminho, os pés, o alfabeto barato.
Sinto que os caminhos não significam nada,
Nem nada de significante há nas pegadas ou palavras,
A viagem sim, esta é o propósito,
A libertação.
Mato-me então, com o sono do mundo,
Que boceja sobre as cabeças cansadas,
E abandono a província, o passado, a casca,
Sobretudo, minha estupidez.
Por sobre meus ombros caem às esperas,
Eu penso:
Que Nossa Senhora dos Acordados tenha um milagre para toda gente que nunca dorme,
Com medo de acordar.

18 comentários:

AC disse...

Um devastador e titânico combate contra as amarras que nos cerceiam...
Ira, que intensidade, fiquei estarrecido!
(Eis uma das razões porque sou seu fã)

beijo :)

Marcelo R. Rezende disse...

Nunca me identifiquei tanto com um poema e vou te dizer o porquê: a verdade é que comecei a ler e já achei lindo, como tudo que escreve, mas à medida que as linhas eram novas, um poema me surgiu do poema que você nos presenteia. Nunca tive isso antes, queria compartilhar.

Te amo por isso. Obrigado por ser Ira.

Liberdade. disse...

Boa noite!
Querida Ira,

a forma desprendida é encantador!
sou amante de tudo que foge a regra,sou amante de vida,da liberdade e não tem como não ser sua fã.!
um abraço!

Rosemildo Sales Furtado disse...

Belo e muito profundo. Adorei, principalmente o trecho abaixo:

Hoje, minha vida ganhará outra face,
Meus olhos perderão impressões
No labirinto da memória.

O acordar ou não, no dia seguinte, depende somente "DELE".

Beijos e ótimo final de semana pra ti e para os teus.

Furtado.

Assis Freitas disse...

oremos pois com esta berceuse,


beijo

MOISÉS POETA disse...

A minha insônia tem companhia...

Que bom que não dormi
e pude ler essa obra prima.

Bendita seja a tua inspiração.

Um beijo !

Al Reiffer disse...

Gostei da intensidade do poema, parabéns! Abraço!

Nilson Barcelli disse...

Todos somos diferentes do que aparentamos ou somos forçados a ser.
Uns têm consciência disso, outros nem tanto.
O teu poema é EXCELENTE. Parabéns pelo talento que as tuas palavras revelam.
Querida amiga, tem um bom domingo e uma boa semana.
Beijo.

Érica disse...

Iraaaaa!

Deve ser isso que nos faz "acordados" o fato de ñ conhecermos o mapa de amanhã... vc acerta o alvo, sempre, sem deixar de ser belíssima e leve.

BjOs da sua adotada!

helio.rocca disse...

Amiga, você sempre a escrever poemas intensos que questionam a vida, as relações humanas, o estado de ser e dizer... És muito clara, a parabenizo por ser assim...

LauraAlberto disse...

o Homem na sua tentativa de ser imortal, sabe bem que é mero mortal

beijinho
LauraAlberto

Carolina disse...

Estupenda confissão, um intenso desejo de viver. ¡Que a Senhora dos Acordados nos conceda a esperança y el favor de estar vivos e "deste lado"!
Abraços.

Patrícia Pinna disse...

Boa tarde, Ira. Espetacular o seu poema! Você sempre consegue prender-me com a tua arte tão intensa e profunda.
Parabéns!
Um beijo na alma!

A.S. disse...

Sou teu fã!.. :)


Beijos!
AL

carmen silvia presotto disse...

Hey, há uma libertação que nos mata com o sono do mundo... que bom estar aqui te lendo, debruçando o ombro de meus dias em teus versos e esta oração é poesia que desperta e muito, beijos Ira querida, boa semana.

Carmen.

Américo do Sul disse...

Como é saudável passar por aqui...

Pat. disse...

Impressionante!

Penso que todos já sentimos pelo menos um pouco do tudo que escreveu aqui. Como sempre a surpreender com palavras tão intensas.

Um beijo lindona e tudo de maravilhoso para ti, amiga!

Jorge Pimenta disse...

a demanda em torno de todos os pedaços que nos dão sentido. engavetemos o tempo que não nos merece...
beijo, querida ira!