INSPIRAÇÕES DO POETA

19 de set de 2007

Cara ou coroa

Ah, lá estava ela outra vez!
Os seios debruçados na moldura da janela.
E que seios! Largos, fartos, exatos. Confortavelmente esparramados no decote.
Amparava com os bicos intumescidos, uma ou outra mecha caída dos cabelos vermelhos.
Especulava curioso: - seriam também vermelhos seus pentelhos?
Aquela visão diária de olhos blasé fingia não entender o martírio que me causava, dentro da calça apertada.
Caminhava constrangido diante das beatas, que torciam os narizes e arrastavam pernas tatuadas por varizes, até o confessionário. Lá, vomitavam pecados sórdidos expurgando suas culpas ajoelhadas diante do altar.
Ah, lá estava ela! Visão lunar.
Com a boca grená e entreaberta, como quem quer um sorvete ou um falo. Vez ou outra deslizava a língua sobre os lábios carnudos e em seguida fechava-os.
Fascinado e febril. Imaginava sua bunda estufada, a cintura afunilada, as curvas arredondadas. Podia sentir o perfume de sua coisinha úmida e quente. Um tesouro! Um continente a desbravar. Não suportava imaginar tudo aquilo escondido atrás de uma parede matando-me de fome e sede. Ah, pequenina sereia! Murmurava com o olhar guloso e raso:
- porque não me deixas ver-te inteira?
Vem, acaba com essa desgraceira, com esse desmantelo, com todas as bronhas que te ofereço em noites solitárias e sem apreço.
Juro, mulher, que te amo! No entanto não me deixas ver-te inteira.
Ah, lá estava ela!
Na tarde sombria, mais bela do que nunca, me sorria. Um sorriso regateiro, permissível e trapaceiro.
Finalmente, a teria em meus braços, a devoraria em pedaços: a boca, as coxas, os seios.
- e os pêlos seriam vermelhos?
Arrebatado por uma angústia ardente pensei: - de hoje não passa essa devassa!
Deito-me com ela, desnudo a flor que esconde entre as pernas.
Como um afoito e excitado adolescente invado-lhe a casa, o quarto e o corpo imaginado. De repente, um desconforto. Não havia nenhuma flor, mas sim, a farsa de um impostor.
Na desordem do corpo-a-corpo, a decepção, a descoberta da infeliz condição.
Tomado por surpresa pergunto o nome da tal princesa, que responde sutilmente, como eco de um tambor.
- meu nome é Agenor e o seu, meu amor?

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