INSPIRAÇÕES DO POETA

15 de set de 2010

Lissa, a face da loucura




Quatro gritos intermitentes, secos, numa rua acessível de pessoas normais. Após o desarranjo, um silêncio impregnado de túmulo. Os grandes olhos já não mais humildes faiscavam vingança. Atirou seu corpo no banco, como um saco velho de estopa, disforme e não completo, de um troço que me parecia flácido. A boca tomada por baba e mudez diabólica deu-me a suspeita de ser o tempo de respiração necessário, antes, que daquela caverna úmida logo saíssem monstros mitológicos. Minha intuição inequívoca farejava o temor e podia senti-lo na contração muscular da face de Lissa. Inevitável, pois havia resíduos de memória que baralhado ao ódio compunha efeito alucinógeno e, de volta ao desassossego, às palavras começaram a sair como setas envenenadas. Ela, já não suportava a dor ácida de toda uma vida de desamor e torturas, e despejava seu lixo em público. Cuspia imoralidades, frases desconexas imprimindo aos passantes, vergonha e repulsa.
Imersa na obscuridade, Lissa saltava furiosa sobre os automóveis, como se fora matar dragões, como se fora matar seu verdugo, seu homem que a enchera de filhos, de dor e de solidão insana, e quanto mais desprezo lhe era favorecido, mais ruminava indecências.
Eu queria correr ao seu encontro e dizer-lhe: Durma! Os dragões foram abatidos.
Havia em mim, uma cumplicidade humana, talvez, eu quisesse tranqüilizar nossos medos, talvez, o meu temor fosse que os papéis se invertessem. Eu me via e ela não!
Espreitava seu desatino, de dor uterina pungente, mas me sentia fixada ao chão por uma civilidade medíocre e todos se afastavam, porque não queriam se ver, não poderiam negar seus pedigrees. Eram normais!
Lissa, não chorou e se reconheceu. Fez sinal ao primeiro ônibus e subiu. Sumiu e nunca mais eu a vi.

13 comentários:

Franck disse...

Que 'Lissa' nos visite em certos dias, certas noites...depois suba em algum ônibus,metrô ou outro meio de transporte qlq e nós deixe a pensar que atingimos 'o equilíbrio'...
uma quinta iluminada! Bjs*

Lily disse...

Ira,

Vi a cena. Quando eu era muito criança, cerca de 5, 6 anos, vi algo parecido, da janela da minha casa. Fiquei parada, assistindo, boquiaberta. Nunca me esqueci dessa "Lissa" da minha história.

Forte!

Beijos!

Machado de Carlos disse...

A loucura é uma doença muito triste. O cérebro do louco é descontrolado. Faltam-lhe raciocínios lógicos. O Louco precisa de um tratamento.
Um Grande Abraço! Obrigado pelas suas palavras de carinho!

Sil.. disse...

Mas quantos de nós não temos lapsos de loucura?

Existem algumas Lissas dentro de nós, não adianta!!

Beijoooooo minha linda!

Érica disse...

Sabe que tô com a Lissa?
Melhor ser um "porra louca" feliz rsrsr

bjok

F. Otavio M. Silva disse...

pelo título pensei que fosse parecido com o meu poema http://otaviomsilva.blogspot.com/2010/09/beira-do-caos.html . Mas não é, dá até um pouquinho de inveja (inveja boazinha)queria eu conceguir fazer metáforas desse nivel, vc é muito boa nisso.

Lua Nova disse...

Que profunda e dolorosa humanidade há em Lissa... o transbordar de todas as dores, desamores e desesperanças no desvairio da lucidez que cega os olhos.
Ira, que texto mais viceral, que angústia primordial, vc me impressionou, me fascinou com a densidade da tua prosa.
Confesso que me surpreendeu!
Tenho lido seus comentários em outros blogs e sempre achei muito bons. Hoje descidi vir. Que bom.Vá conhecer meu blog, sim, dê-me esse prazer.
Beijokas.
Seguindo... é claro...

Lua Nova disse...

Voltei pra ler outra vez.
Me emociona... transporta!!!
Lindo!

Úrsula Avner disse...

Oi minha amiga,

um silêncio impregnado de túmulo... Bela imagem poética assim como tantas outras que você sabe tecer tão bem... É sempre muito bom aportar por aqui. Bj com carinho e obrigada pelo afeto a mim dispensado.

CARLA FABIANE... disse...

"UTOPIA: Ela está no horizonte, acerco-me um passo e ela se afasta dois.Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos mais.Por muito que eu caminhe - Nunca a alcançarei.Para que serve a utopia? Serve para isso.Para nos fazer caminhar."

Eduardo Galeano

AMIGA LINDA!
AMO SUA AMIZADE!
VC É UMA PESSOA LINDA!
UM BELO FDS!
BEIJOS NO CORAÇÃO....

| A.Luiz.D | disse...

No primeiro instante causa repulsa, mas é uma situação de compaixão. O histórico de Lissa incomoda, nao sabemos a origem. Só restou sua agonia, creio que ela procura se libertar, mas não se conforma em sofrer neste mundo.

Fulvio Ribeiro disse...

Ira, que coisa maravilhosa..!!!
Quando penso na loucura (e penso sempre) me vem uma pergunta: Não seria Fulvio "a face da loucura" tendo lapsos de sanidade em uma rua acessível a "lissas"?
Me encanto com teu encanto, palavras ótimas como sempre.
Grande Abraço.

Germano Xavier disse...

Contundente descrição, Ira.