INSPIRAÇÕES DO POETA

20 de jan de 2011

As Orelhas Sem Voz




Corto tuas orelhas pra que não escutes tua boca, este céu de meteoros, que explode demência sobre nossa casa.
Talvez as guarde em caixa aveludada, como se fora um par de alianças antes das núpcias, até que o silêncio cubra os pensamentos.
Quem sabe, em noites de gentilíssimos invernos mansos, eu as exponha ao sereno e sussurre, dentro da cavidade, algumas poesias exiladas em diário.
E teus olhos envergonhados derramarão chuva miúda, antes de cerrarem as pálpebras, e se encostarão ao meu ombro sabendo por que chove do lado de fora.
Corto tuas orelhas, após caminharmos em nossa promiscuidade, como sombras sem nomes, até atravessarmos o rio, noutra margem, águas claras.
E sem te ouvir, tua boca temerá meu rosto cheio de letras, o que fará tua língua abandonar os entulhos e devolver-me em pétalas a linguagem.
Ainda em desvelos deceparei tuas orelhas com cacos de vidro, do espelho estilhaçado, que refletiu nosso avesso e minha dor jamais será ouvida.
Assim, quando o ciclo da amargura se fechar, o sangue será vinho, a cartilagem o pão e nós voltaremos ao branco, da pureza original, em comunhão.

23 comentários:

Saulo Taveira disse...

Cortante.

Como será se atar os braços, costurar a boca, vendar os olhos?
Ou talvez, abrir a boca, as orelhas, arrancar as pálpebras, esticar os braços?

Tua poesia me rasga o peito.

Te adoro.

Carol disse...

Aiaiai... que os ciclos amargurados se fechem logo!

Ives disse...

É o eterno ir e vir, da vida! Td muito lindo aqui Srta! abraços

Antonio José Rodrigues disse...

Antes, Ira, que cometas esta loucura, quero ouvir-te. Beijos

Dilmar Gomes disse...

Minha amiga Ira, o ciclo de amargura vai passar, pois tudo passa. O tempo se encarregará de disso. O tempo, o remédio para tudo. Gosto muito do teu texto. Tu tens obras publicadas?
Um grande abraço.

Marcelo R. Rezende disse...

Ira, que absurdo de lindo.

Sabe que às vezes eu sinto vontade disso, de que tudo se faça silêncio, de que seja tato e olho, que eu veja apenas, e que consiga decifrar os outros sem que eles falem.
Queria que fosse mais fácil o entendimento, sem sangue, sem dor, sem que precisasse haver uma catarse pra que o novo chegasse, pra que puro ficasse.

Mas eu penso, qual seria a graça?
A dor faz a parte e a vida pulsa.


Beijo do filhote.

ღPat.ღ disse...

Ira, adoro demais o modo como escreves.. usa as palavras de forma linda e uma mistura que poucos tem o dom de fazer.

Tem um selo para ti no meu blog, fique à vontade para postar ou apenas receber ;)
http://mundobrasileirissima.blogspot.com/

beijos...

Fred Caju disse...

Não me lembro de ter lido um mais bonito que este por aqui. Muito bom mesmo, Ira. Abraços.

Assis Freitas disse...

isso me lembrou van gogh e a sua orelha perdida, van gogh sem orelha vagando na eternidade de girassóis,


beijo

Antonio José Rodrigues disse...

Ira, minha linda e culta poetisa, um extraordinário fim de semana para vc.

P.S. Estarei a viajar pelo Brasil. Afastar-me-ei da net por alguns dias.
Beijos

Juci Barros disse...

Incrivelmente lindo!

Beijos.

Cris França disse...

Ira,

Hoje vim aqui para deixa um beijo especial, e agradecer por você fazer parte da minha história, tem um selinho para você lá no blog!

Jorge Pimenta disse...

ouvi que a orelha se fecha em tímpanos tímidos filtrando o silêncio. e todo o [nosso] mundo recolhia, em reverência surda, ao círculo cartilaginoso da pureza original. vestido de branco, com.unha.mão!
beijos e pétalas, querida feiticeira-da-palavra!

rouxinol de Bernardim disse...

a vida é assim mesmo, tem altos e baixos, venturas e tristezas há que saber superar tudo com ànimo forte...

José Carlos Brandão disse...

Sempre em busca da pureza original!
Em comunhão, Ira.
Beijo.

Érica disse...

Os ciclos amargurados exprimem o melhor e o pior de nós, coisas que as vezes nem nos damos conta!

Ow Ira tava mesmo com saudade de vc! da sua cara boa, das suas palavras etéreas...

ótimo fim de semana!
a neta é uma gata, assim como a avó!
bjãO

Cadinho RoCo disse...

Na quietude do carinho orelhas cortadas por sussurros delirantes.
Cadinho RoCo

Athila Goyaz disse...

Belíssimo conto!
Te adoro!

Poeta del Cielo disse...

como e bom chegar aca y a traves de seus versos voar neles e sentir un hermoso sentimiento feito poesia...

saludos
otimo final de semana
abracos de coracao amiga Ira

Carolina disse...

Oi Ira, que lindo que você escreve, como suas histórias de angústia e desespero no amor ... é fortemente sentida.

Mas quem é esse bebê lindo que eu estou vendo? Como é doce, ele ri feliz! Beijos para ambos.

Lily disse...

"...E sem te ouvir, tua boca temerá meu rosto cheio de letras, o que fará tua língua abandonar os entulhos e devolver-me em pétalas a linguagem."

Amei esse trecho! Lindo, sentido, tão bom...

Beijos!

Suzana/LILY

Vieira Calado disse...

Olá boa noite!

É a 1ª vez que aqui venho e achei o seu blo interessante e variado.

Saudações poéticas

Fanzine Episódio Cultural disse...

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