INSPIRAÇÕES DO POETA

5 de jun de 2011

Tempero Para Casas e Panelas Vazias




As mulheres doloridas na escada descem por degraus fáceis, a miséria difícil de calçar, do chão forjado em caminho íngreme.
Chamam-se Auxiliadora, uma Maria de, outra de Maria, olhos baixos espichados nos pés tristes de cansaços velhos.
Bença, vó do auxílio! Diz o neto de Maria de, subindo, subindo, como se fora pipa bêbada, ele menino, que mora perto do céu, só tem ainda dez anos de órfão, ligeirice e idade de levar peso, do medo, do descaso, do fuzil, nunca livros de cigarras e sapos
Ela abençoa cega de pensar, como se fora ele dos outros, não dela e lembra que não tem margarina no pão que o diabo amassou.
Há apenas um punhado de nada na mesa que ampara santo torto, santo de pau oco, onde Maria reza nove terços e espera o desentorte da madeira que é mais tenra que olhar natimudo de menino pirambeiro, que pulaqui-pulacolá, pula amarelinha apagada e cai no céu do inferno, mas sobretudo, cai na vida virando cão de procela com dentes de raiva.
Nada pode Auxiliadora sem auxílio contra as mordidas viciadas, contra a risada prata da pistola que enfeita cintura esmirrada de dá dó, dó que se tem do pássaro que cai do ninho agonizando morte prematura.
Ah, como a infância é infeliz na cidade dos homens que não foram crianças!
Dos que jamais serão velhos, quando nas valas dorme a mocidade definitiva.
E as Marias descem até o asfalto da cidade, que encanta estrangeiro e serpente, ao som das flautas ilusionistas que mentem o contra-senso em carnaval e guizo.
Nos cabelos, lenços de cânhamo e nas mãos, fé e temperos, coisa de quem cozinha farto alimento do patrão e vida escassa, na ingênua esperança que lhe caiba a sobra.

21 comentários:

Franck disse...

Sensibilidade à flor da pele? Que as Marias, os temperos, o asfalto, as casas, os meninos, as pipas, o domingo faça vc nos presentear com textos tão bons qto!
Bjs*

C. disse...

Sou frequentadora novata no seu espaco, nao desconsiderando nenhum outro texto, mas esse foi o que mais me identifiquei!

"Só tem ainda dez anos de órfão, ligeirice e idade de levar peso
Do medo, do descaso, do fuzil, nunca livros de cigarras e sapos."

Genial, como dizem por essas bandas!!

Uma semana iluminada Ira!!

Dilmar Gomes disse...

Cara amiga Ira, já tenho dito muitas vezes, mas não canso de repetir, tu és uma escritora talentosa.
Um grande abraço e uma ótima semana.

Canteiro Pessoal disse...

Ira, ler-te é maravilhoso, que delícia de descoberta o seu blog. Amei a forma que utizas as palavras, despojada e articulada.

Amei seu porte, olhando-te percebo-te uma mulher moderna, pra cima, visionária, e isso sacode ossads mortas.

Amada, uma pergunta: Que profissão é este que citou no perfil OBSERVADORA? Pois, tomo conhecimento no momento.

Abraços

Priscila Cáliga

Marcia disse...

Oi querida dias dificeis mais passará ,vim te desejar boa semana! um bjo!

A. Reiffer disse...

Intenso, forte, gostei! Abraços!

Sandra disse...

E tanta Maria que se arrasta nas vielas amargas da vida!
Genial como sempre, querida.
Beijo

helio.rocca disse...

Cortastes um profundo retalho sobre a existência. Lindo!

Pedro Menuchelli disse...

Sensibilidade é um dos seus fortes né Ira?
Acho muito linda a forma com a qual você caracteriza coisas que muitas pessoas nem dão tanto valor assim. É isso que demonstra o grande coração que tem.
É um prazer seguir alguém com uma consciência tão magnífica quanto a sua. Obrigado por me proporcionar grandes momentos e reflexões a partir da sua leitura.

Um grande beijo!

Malu disse...

Fico a criar em minha mente a cena, desenhando-a assim, com toda a riqueza de detalhes que encontro já de cara no primeiro parágrafo e ouso a dizer que os degraus fáceis nem sempre nos levam aos melhores caminhos...
Amei!
Abraços, minha amiga!

Mari Amorim disse...

Ira,
adoro seus textos!
Um abraço,cheio de boas energias!
Excelente semana!
Mari

silvioafonso disse...

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Delícia de comentário você
deixou pra mim. Esse cruzado
acertou-me o queixo, acredite,
não fosse com beijo que você
me bate.

silvioafonso






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Iram M. disse...

Digo isso sempre Dilmar.
A Ira tem veia literária.
Adoro o que ela escreve, como ela escreve e como envolve a gente no que escreve.

Beijo, Ira!

taio disse...

excelente entrada

Machado de Carlos disse...

Idéias e frases verdadeiras num tempo que chamamos de moderno. Por que carregamos nos ombros as dores das dores? Algum dia, algo positivo deve ser feito!
Beijos!...
Bela semana para você!

Antonio José Rodrigues disse...

E na contra mão do capitalismo, Ira, caminhemos todos nós - mortais selados pela mais-valia. Beijos

Marcelo R. Rezende disse...

Mariar a vida como você maria a nós.

Rosemildo Sales Furtado disse...

"Nos cabelos lenços de cânhamo e nas mãos fé e temperos, coisa de quem cozinha farto alimento do patrão e vida escassa, na ingênua esperança que lhe caiba a sobra."

Tenho muita fé em DEUS de que um dia os homens entenderão que todos somos irmãos, que já foram crianças e que também serão velhos, e estenderão as suas mãos auxiliadoras em prol das Marias e demais semelhantes.

Belo texto amiga, verdadeiro e muito profundo.

Beijos e muita paz pra ti e para os teus.

Furtado.

Furtado.

♪ Sil disse...

Metade adorada de mim!

Talvez eu me veja (na frente) a Maria das ruas e esquinas da vida.
Talvez eu me veja (lá trás), a Maria de lenços no cabelo.
Sei lá.
Tantas Marias vemos, somos, seremos?
Quem sabe.

Choram Marias e Clarices.

Um beijoooooo escritora predileta.

(E amiga de todas as horas)!!!

Sandra Botelho disse...

tantas marias e tantas são suas dores e flores e laços e passos...Lindo demais teu texto flor.beijos achocolatados

cristinasiqueira disse...

DOEU e Dòi.

ÓTIMO TEXTO ,OUTRA VERTENTE SUA,QUE PEGA
A ALMA DA GENTE,BELISCA E ACORDA!


cRIS