INSPIRAÇÕES DO POETA

8 de jan de 2012

Ensaio para Auroras e Impossibilidades


Levanto-me na manhã que ontem implorei.
- Oh, Deus, minha alma é feita de bichos carniceiros!
- Dei-me tua existência, então,
Aquela cujos intelectuais desprezam,
Mas os vagabundos não.
Dei-me a aurora dourada apontada sobre todos os crânios,
Sobre todas as peles que morrem de fome,
Tua piedade esclerótica, Senhor,
Pois à noite tenho fraquezas miseráveis.
- é na escuridão que a matilha afia os caninos -
Levanto-me, na primeira gota de luz,
Os olhos sujos das ânsias que pouco divulgo
E que arrastam minha carne por labirintos birrentos,
Já é hora de contrair o abdômen até o nocaute.
- A boca do estomago cospe o soco que a espanca –
Saio de casa com uma ilusão que jamais se emenda:
- Todas as esquinas tossirão poemas,
Enquanto os homens intoxicados por versos
Serão contaminados até seu último subterrâneo,
E suas mãos vomitarão vozes seculares.
Ando! Tudo é áspero, poeirento e mamífero.
Ando! Pouco é luto, equilíbrio e fruto.
Serei eu, a louca que protege a lira de Apolo,
Como a mãezinha amantíssima
Ou o mais estúpido espírito demente,
Quando renuncio a razão?
Minha sombra ronda os estrondos da morte,
Porém minha face se assanha diante das impossibilidades.
Pois então, não levantem contra mim um mundo exato!
Quero morrer sob tortura nas noites Dionisíacas,
Até a escassez do vinho, até cerrar o tecido da memória.
Quero viver sobre as cartas de Pessoa a Ofélia,
Com o corpo pousado em cada sentimento,
Todos os jinhos e mais jinhos nos cantos da boca,
E não me impeçam de invadir o poeta.
Levanto-me, porque me parece sempre impossível.



CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 9 DE OUTUBRO DE 1929


Terrivel Bébé

Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim .

9 comentários:

carmen silvia presotto disse...

Bom estar aqui Isa para colher teu diálogo, e me embriagar dionisicamente com tua poesia e por Baco que sigamos 2012 poemando!!!

Beijos e boa semana.

Carmen.

Assis Freitas disse...

que ótimo pasto este o das cartas de Pessoa e Ophélia, é um deitar-se de deslumbres



beijo

Úrsula Avner disse...

Oi amiga, saudades de ti...sempre textos de qualidade e impactantes...Desejo a você um feliz 2012 ! Bj com carinho.

Ana Luiza Cabral disse...

Sempre bom vir aqui, e ler seus textos e poesias que encantam!

Luiz Alfredo Nunes de Melo disse...

Teu poema de metáforas profundas
afiadas
molhadas na terra
mas com reflexões metafísicas
abstrações poéticas
numa harmonia nietzchiana
perfumado com a múisica
de Peter Best
onde mostra uma poeta
de força
audácia e coragem
Dionísio destila a uva
e faz o vinho da quebra
de todos os valores
embriagar até os poetas
faz o umbigo fecindar
a dança e as paixões
desvairadas
onde o yin atinge sua revolta
a volta é de harmonia
A lira de Apolo faz um belo
soneto.
Obrigado poeta pelo poema
Queria escrever um desses

Ósculos poéticos

Luiz Alfredo - poeta

A.S. disse...

É sempre um prazer sentir-me no meio das tuas palavras!...


Beijos,
AL

Márcio Kindermann disse...

Ira, tudo de lindo prá vcs!
Que 2012 seja assim....AZUL.

*Não estou frequentando muito por aqui, fiz uma cirurgia nos olhos, luz do cp encomoda, então repouso...
bj meu

Jorge Pimenta disse...

querida ira,
viscerais, ambos os registos. pessoa gostaria de ter dito a ofélia queirós coisas como "Saio de casa com uma ilusão que jamais se emenda", ou "é na escuridão que a matilha afia os caninos"...
impossível não sentir os movimentos peristálticos do corpo, ao ler-te, amiga.
beijinho!

Andrea de Godoy Neto disse...

Ira, que maravilha!
Que poema esse... visceralmente arrebatador

guria, eu vim para ler os poemas que havia perdido, mas li este e todo o restante ficará para outro momento,
porque, por hora, este me arrebatou

beijos pra ti, minha querida!