INSPIRAÇÕES DO POETA

2 de mai de 2012

Dignidade Para Rapaduras e Um Tanto de Amor Para os Insetos





Por todos os caminhos que andei só - destino do homem -, muitos foram os cemitérios de palavras, as exaustivas montanhas sombrias que escalei deixando pele, porém, não houve um só terreno que eu, com ou sem razão, não plantasse flores. Revolvia com as mãos, sempre, em carne viva, os berços das sementes, depois as vestia de terra pisada e úmida para que pudessem reconhecer os passos entranhados na lama, e assim, só assim brotassem sem tragédias, porque há mais que renascimento nesta hora, há renovação, uma nova ação de vida, uma nova criação, assim pensando fui me colocando em calma, o que seria alimento primordial de sobrevivência. Jamais arredei os olhos daquilo que crescia tímido, já com ossos a doer de existência, excessivo de mundo, dentro, que por nome chamei esperança. Uma menina! Talvez tola, quem sabe um monstro estrangulador, o fato é que gostava dos seus olhos em mim.

Habitei o insuportável, num país que nunca foi meu, todo meu esqueleto se ressentia. É que as dores represavam-se furiosas e criavam limos nas entranhas, cada lambada acumulava lodo odioso de memórias implacáveis. Tinha medo de aterrar todas as flores, num instante qualquer de destruição, junto ao meu peso humano. Anestesiei tantas vezes o sofrimento para poder olhar o sol sorrir e deter um só respingo que fosse dessa beleza inextinguível, no entanto, as voltas do mundo me traziam o mar noturno e suas tempestades violadoras, que bebia afogando-me, mesmo resistindo com mãos e cabeça de farol, que tentavam pensar e escrever com fios de sangue os poemas mortais, que tentavam compreender essa insólita escuridão a capturar sonhos. A menina, que a chamava esperança, já não desgrenhava os cabelos de demência e eu não a reconhecia mais. Perdi-a no pântano de realidades, entre estupidez e insignificâncias.

Perdi-a num oceano de misérias humanas, sem dar-me conta de que já não saberia encontrar grãos de areia claros, além do cais que observa atentamente as embarcações, sem seus cachos feitos de pó lunar, os mesmos roubados por dias insensíveis. Eu tinha que partir e me deixar na distância mais possível de me saber, longe, naquela boca de noite, onde os bichos se alimentam de outros bichos, onde a visão é crua e é aterrorizante a paisagem, mas tinha medo de ver que aprendera a cegueira dos homens. Havia entrado num labirinto, onde a única saída existida estava além do estreito corredor do inferno.  Blasfemei mil vezes a falta de alternativa e lancei-me ao fogo. Deixei-me consumir em pecados, os meus, os deles, os nossos, debatendo-me, como uma barata de pernas pro ar é devorada pelas menores formigas, até desviver toda dor de ser humana. Deixei-me ferir com todas as granadas das guerras, assim que todos os membros se descolassem do tronco, então encararia o que realmente existia em mim, um monte de carne pronta a expelir fedores. Saí dos confins com a certeza de que a raça humana é tão suja quanto às baratas, a diferença é só uma questão de quantidade dos podres.

Estou cansada e com preguiça de encontrar qualquer sentido nas pessoas que querem ser alguém na vida (mas já não o são?), nas democracias idosas e doentes, nas brincadeirinhas de guerra dos meninos cruéis, nos porões dos egos que escondem bacanais enquanto os corpos mentem ajoelhados em altares. Já não suporto mais as vestes da hipocrisia, essas roupas sujas e disfarçadas com perfumes franceses, que toda gente usa pelas ruas. Esse cheiro me enjoa! Não é uma questão de desistência, talvez desassossego ou apenas uma péssima habilidade pra vida e pra morte. É que viver me parece uma boca desdentada a comer rapaduras e a morte, esta não me faz esquecer o quanto somos semelhantes aos pequenos seres voadores e breves. Não é pessimismo, nem humor ácido, até pode ser uma atitude antipática, mas quero alguma coisa que valha, enquanto isso, mais fácil é ir-me suicidando aos poucos, de rum, cigarros, solidão e poemas, mas com muito amor e simplicidade.

10 comentários:

Assis Freitas disse...

o título é uma obra prima, um primor de reflexão

beijo

A.S. disse...

Ira, Belissimo texto! É sempre um fascinio ler vc...


Beijos!
AL

Sandra Subtil disse...

"Já não suporto mais as vestes da hipocrisia, essas roupas sujas e disfarçadas com perfumes franceses, que toda gente usa pelas ruas. "
Fedem essas vestes...
Brilhante,minha querida Ira!
Beijo carinhoso

Marco Rocca disse...

Um retrato, uma verdadeira imagem da vida e suas particularidades, reticências... Parabéns amiga!

Lily disse...

Querida Ira,

O último trecho é arrebatador. Nada mais a comentar, para quê? Simples assim, muito simples, tão simples... não é cruel, é apenas realidade.

Suzana Guimarães - Lily

Lua Nova disse...

"... nos porões dos egos que escondem bacanais enquanto os corpos mentem ajoelhados em altares..."

Qualquer coisa que eu diga não fará jus a esse texto que é sangue, suor e alma.
Se sabe que te curto demais, né Ira?
Tava perdida por aí... to voltando.
"...mas quero alguma coisa que valha, enquanto isso, mais fácil é ir me suicidando aos poucos, de rum, cigarros, solidão e poemas, mas com muito amor e simplicidade."

Me acho inteira nos teus textos.
Owwww alma antiga, owww sensibilidade à flor da pele. Amo ocê, muié!

LauraAlberto disse...

permite-me que te roube:
"Não é pessimismo, nem humor ácido, até pode ser uma atitude antipática, mas quero alguma coisa que valha, enquanto isso, mais fácil é ir me suicidando aos poucos, de rum, cigarros, solidão e poemas, mas com muito amor e simplicidade."

e faço disto minha regra para continuar a resistir!
Beijo

Cecília Romeu disse...

Nossa, que prosa poética incrível Ira!

Mostraste todo jeito Ira de ser.
O que somos sem amor?
E a simplicidade? Existe coisa mais sofisticada a simplicidade?

Grande beijo!

silvioafonso disse...

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Estou te seguindo. E tu?

Beijos,

Palhaço Poeta





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Paulo Tamburro. disse...

IRA BUSCACIO,

depois que acabei de ler este seu texto, entre extasiado e agradecido,comecei questionar sobre quais os critérios que levam editores a elegerem este, e não aquele escritor, para ser editado!

Neste bagunçado mercado editorial brasileiro, será que não existe ninguém para colocar ordem na casa e começar a garimpar novos e excelentes autores como você?

E cito você como exemplo, entre muitos outros existentes, afinal o que falta?

Estou indicando vários textos seus para meus alunos universitários, pois, se estes chamados profissionais do livro, não possuem nenhuma sensibilidade , eu não quero igualar-me a eles.

Um abração carioca.