INSPIRAÇÕES DO POETA

5 de ago de 2012

A Gosto de Peles







Tarde de agosto caída sobre meus olhos,
Doce peso lilás, não espere de mim inocência,
Pois conheci o alheio, onde tudo é abandono.
Tarde longa de agosto!
Adivinhou a vinda do que seria saudade,
Mais tarde, quando a noite riscasse o lençol de restos.
- gosto, cheiro, sêmen –
Um corpo sem outro corpo, morto de vida,
O rosto afundado em fogo,
Chama feliz de incontrolável.
Adivinhou a dimensão do escândalo que seria ignorado,
Mais tarde, quando os náufragos não mais temessem a morte
E, seduzidos pelo medo agradável, se deixassem ir até o mundo escuro.
Mundo sem decadências, das faces, dos sentimentos,
Cuja terra jorra flores e as flores jorram mel,
Que lambuza os sentidos, que respondem com gozos.
Lá, o tempo não oprime pele com mãos violentas.
Lá, o tempo não mora!
Adivinhou a música inesquecível desse querer improvável,
Mais tarde, quando tudo existisse afinação e desejo,
O canto encantado do espanto seria lembrado nos poros,
Entre líquidos e asmas, enquanto houvesse vontade
E não memória.
Assim, primeiro veio à tarde pingando curiosidade nos olhos,
Depois a canção espalhou-se nas palmas das mãos inquietas
Por venenos e estrelas.
Mais tarde, a noite ocupou-se de nossos corpos, apenas,
Macios e confusos, dentro e fora,
Sem lembrar-se do crepúsculo que tatuaria em nós,
Antes de nos findar em distâncias.

17 comentários:

Assis Freitas disse...

findar em distâncias: é tão longo este despertencimento



beijo

Joelma B. disse...

ah, essas distâncias que nos teimam!!

beijinho com pele arrepiada, Ira mais que brilhante!

AC disse...

Nos poros se instalam os periscópios, as (im)porobabilidades fazem parte de cada respirar...
Escreve como quem respira, Ira!

Beijo :)

Marco Rocca disse...

Lindo demais este poema. Pude perceber os desencontros existentes entre dois amantes que se querem, mas verdadeiramente jamais se amaram...

Caroline Godtbil disse...

Hoje me sinto esse poema...
"Tarde longa de agosto!
Adivinhou a vinda do que seria saudade..."
Ira, mulher, adivinho em você mais que uma alma, mas a imensidão de um universo em eterna expansão...
Lindo!
Beijo.

Malu disse...

Sou suspeita para falar dos seus poemas pois eles sempre carregam uma força incrível nas palavras.
Elas são diretas e certeiras, sempre.
Grata pela sua visita em meu cantinho.
Grande semana para si, Ira!

Carolina disse...

Que belleza, agosto intenso em sua alma que se expande hasta mim!
Beijo e abraco grandes.

LauraAlberto disse...

Ira,
tu arrasas com essas distâncias findadas...

beijo de admiração Poeta

Cris de Souza disse...

Deleito-me ao ler-te. Tens uma voz e tanto!

Beijo, poeta irada*

Nilson Barcelli disse...

Fizeste um magnífico poema, querifda amiga.
Gostei imenso.
Ira, tem uma boa seamna.
Beijo.

Ingrid disse...

obrigada pela visita e palavras..
encontros de tantos tempos e distâncias..
belíssimo.
beijo.

Marcelo R. Rezende disse...

Adorei Ira, porque chegado o fim do poema, me identifiquei e senti uma tristeza de quem constata o fato tão minimante escondido.
Beijo.

Carol disse...

Que lindo!
Boa semana pra ti!

Audrey Andrade disse...

Ira, simplesmente sensacional!

Meu carinho!
http://pequenocaminho.blogspot.com

Adri Aleixo disse...

Saio com a pele irrigada...

Beijo, Ira sempre linda! Creio que essas duas lindonas nas fotos sejam suas filhas. Há uma dedicatória a vc lá no meu cantinho.

Anna Mª Amorim de Farias CRP06/39859-9 disse...

Ira,

Aprecio a intensidade e densidade da tua escrita.

Beijos,

Anna Amorim

Jorge Pimenta disse...

há sempre o peso do sangue a atravessar as nossas ausências. e não adianta tocarem os corpos para avaliar se estão vivos; até o movimento engana...

beijinho, amiga das minhas inquietações!