INSPIRAÇÕES DO POETA

18 de ago de 2012

Rota de Extravio





Talvez passasse a vida sem teu país, talvez sem tua música,
Sem conhecer este ébrio mar de morte suplicada,
Ondas de línguas cheias que lambem a sede dos náufragos,
Porém subestimei tua correnteza invisível, mas bravia e faminta do inesperado.
Subestimei meu navio de guerras e orquestras,
Seu casco remendado, o timão submisso.
Jurei aos quatro cantos jamais ir além da ilha melancólica.
Que violenta jura! A embarcação briosa perdera o temor das pedras,
Dos temporais e de mim.
Foi-se de vez, como nunca antes, ao encontro do azul sem trégua
Perdi a rota, a sensatez e o coração de metal.
Aportei em tuas terras como quem crava as unhas no alto do precipício,
Na pedra definitiva, o medo salgando a boca e nos olhos a certeza do resvalo.
Tombei sobre teu litoral raro de sorrisos,
Meu corpo queimando em fogo de cheiro e sabor,
Febre dos que enlouquecem por amor que não se sabe e há.
Bem poderia essa chama não sobressair-se em face dos mil raios extraordinários,
Luminosidade que envolvia teu território de lábios e raízes,
No entanto, em silêncio repetido dissestes:
Vem comigo! Vem comigo!
E como se enxergasses minha alma,
Com rosto de quem nunca havia deitado crédula,
Não ousou viver antes de mim.
Deitei sobre teu barro quente, onde nascem as súplicas,
Meu ventre conversando teu idioma de delícias,
A boca descobrindo toda região dura que arrasta gemidos,
Sem mesuras com a dor.
Sorvi o veneno adulto e contemplei toda extensão da agonia.
Teu chão acolheu-me, o carvão da pele, a distância das pernas,
As mãos desbocadas, enquanto o céu perdoava o desejo de eternidade.
Ah, como não ser perdida, se foi no extravio do leme que encontrei meu túmulo!
- A morte sabe escrever macio -
Que país é este de hálito vulcânico que me lava?
- Estava escrito na terra o teu nome -

14 comentários:

Caroline Godtbil disse...

Paixão!!!
"Perdi a rota, a sensatez e o coração de metal.
Aportei em tuas terras como quem crava as unhas no alto do precipício..."
Embriagante... tomara que o céu perdoe mesmo o desejo de eternidade!
Beijo.

Marcelo R. Rezende disse...

Suas poesias sempre me fazem pensar que a gente, no fim, se perde no que você diz só pra poder sentir esse mar, essa onda e correnteza. Você tão lindamente ligada ao mar, faz da gente seu cardume. Amei esse, em especial, pela fragilidade, por não ser certo e pela indecisão.

Beijo, Ira.

Te amo <3

Assis Freitas disse...

A morte sabe escrever macio: eis e me detenho ante,


beijo

Audrey Andrade disse...

SENSACIONAL!!! Sem palavras!

Meu carinho!

Cissa Romeu disse...

Ira, linda aquariana!
'A morte sabe escrever macio', como aquela sensação de gerúndio: falecendo, indo, vagando, navegando...
Um estado de reticências de almas que encontram um mar revolto. Encontrando, fugindo, escapando, extraviando...

Beijos, muito lindo poeta!

PS.: Ótima notícia da Valentina. Como é bom a sensação de que nossos anjinhos estão bem, não é mesmo?

Patrícia Pinna disse...

Boa tarde, amiga Ira. Ler-te é um prazer e uma aula, um verdadeito aprendizado. Sinto-me tonta, rs.
Um convite quase sutil que a morte faz, envolvente e quente como o clamor dos apaixonados, que quando vemos já estamos presos em seus braços num desconhecido estado, numa ânsia vivente, num encontro inesperado.
Beijos, você é extremamente talentosa!
Parabéns!

Thiago Castilho disse...

Poeta, você escreve demais." enquanto o céu perdoava o desejo de eternidade." Posso sentir a fúria das suas entranhas.
Um belo, mas pesado filme. (Sugiro q veja legendado)

http://www.armagedomfilmes.biz/?p=72408

Um beijo do observador embevecido por suas palavras profundas e prazerosas

Thuan Carvalho disse...

Muito boa sua prosa!

obrigado pela oportunidade de me embrenhar nesse mar.

escrevi também meu nome nas areias que seguem suas palavras.

S.A.D.E.FILIAL VILLA MARIA disse...

Intenso poema, único, bello. Felicitaciones de la Sociedad Argentina de Escritores Filial Villa María- Córdoba.

Carolina disse...

Ira, estou impresionada... no apasionado mar de suas palavras sento voy perderme para sempre. Este sentimento escrito tem uma atmosfera particular... ya se: e uma peca requintada, amiga.
Beijos.

Érica Amorim disse...

Ira, vc é igual tequila, a gente toma (lê) num gole só!
Vc é igual festa de fogos no fim do ano, impossível não ficar boquiaberto, vidrado...

E esse seu poema... ah! Ira! É de uma sedução sem fim.Arrebatador... águas irresistíveis!

Um abraço do tamanho da galáxia!
beijão da sua admiradotada ;)

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

E como essa morte de que falas no teu poema sabe escrever macio e se embrenha por dentro de nós como um veneno fatal.
Como sempre uma viagem alucinante e que adoro fazer.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Carol disse...

Sempre belos e profundos textos...
pensando sobre a terra ...
um abraço e boa semana pra vc! =*

Anna Amorim disse...


Ira,

"A boca descobrindo toda região dura que arrasta gemidos,
Sem mesuras com a dor.
Sorvi o veneno adulto e contemplei toda extensão da agonia."

Aprecio como trabalha com o erótico. Como usa das metáforas, com força, fúria.

A agonia da paixão,“la petite mort”


Beijos,

Anna Amorim