INSPIRAÇÕES DO POETA

22 de nov de 2010

Rosas Vermelhas




Ela tinha inventado flores que recebera com cartão discreto, a letra, um rabisco comprimido, mas esta, não havia relevância alguma e sim, as flores!
Rosas vermelhas, uma delicadeza sólida que só os amantes desfrutam.
A confissão, tudo ali diante das mãos descrentes, ora lhe pertencia com materialidade.

Nascera pertencida! Sabia, mas precisava fazer sentido sobre a pele, pois há muito, ela desabitada era sua única paisagem.

Abrira o cartão com pulmões ávidos, à sensação era de que só lhe restara uma única respiração. Os olhos alagados de súplicas boiaram entre pétalas e espinhos.
A frase não poderia ser mais extravagante, de um amor fatal, que lhe golpeou os joelhos lançando-os sobre o sofá levando junto ao desmontar-se, o corpo caricato e privado de carícias.

“Dispa-se de tua alma, que levarei teu corpo a convulsão”.

Tinha inventado um vestido com rendas e seda, de cor roxa, quais violetas que viviam no canto direito da sala, onde também, livros e fotografias de outras vidas que não as dela dormiam com raízes. No decote, em forma de libélula, o broche com duas turmalinas, que inventara ser jóia de família, lhe enfeitava o coração, o músculo extenuado de insistências e mutilado de asas.

Simetricamente, a mesa fora inventada e posta com submissão, a mesma submissão quadrada que lhe coubera na rotina dos dias. Talheres de prata e copos em par. A toalha do mais fino linho, não adivinhara dor. É que o fio da trama abraçada não copiara seus caminhos que, quase sempre, não tiveram braços. A felicidade inventada estava nos pratos que eles comeriam, com tempero agridoce, por toda a vida.

Colocara as rosas, ainda mais vermelhas, no centro do olhar, da mesa, do mundo. O mundo onde colecionara, em prateleiras baixas, os sorrisos que não sorriu, pois havia dias em que gostava de usá-los a frente do espelho fingindo-se inteira. Não tardou a sentar-se diante daquele altar, que venceria solidão e vasos sem rosas, e inventou o término da espera, a boca que sorveria o vinho, a celebração.

Estava preenchida de amor, do qual acreditou ser o princípio e justificação maior a tudo que não entendia, quando ansiava, recorrentemente, por flores.
Tinha que existir uma roseira para cada pessoa! Ela sentenciara e saboreara no perfume das pétalas, as evidências. Sentira-se mais que uma mulher, ela desabrochara flor.

Olhara ao redor e nas paredes, ecos impressos em signos, na profusão tingiram os quatro cantos da consciência. Ela havia inventado a desistência e após alguns goles do melancólico veneno, a taça de vinho seca, sua língua espumara a vida inventada. A flor tombara vermelha, de amor e espinho. Matara-se como viveu. Inventada.

19 comentários:

AC disse...

Ira,
A vida é inclemente para quem lhe passa à margem, indiferente a cenários inventados sem sustentação.
Porém o seu texto, na dissecação do drama, acaba por ser um apelo à vida. É que, depois da leitura, apetece respirar aromas deslumbrantes, viver intensamente...
(O seu talento já não me surpreende)

Beijo :)

Carolina disse...

Oh, Ira! que a história trágica e sensual, eu adorei. As rosas vermelhas ... paixão
Você é um gênio.
Um beijo.

Lily disse...

Será mesmo que conseguimos inventar verdades que não são mentiras? Será mesmo que os poetas inventam verdades? Será que a gente na verdade se engana, dizendo ser tudo ficção e na verdade tudo é sonho, delírio, vontade, desejo contido?

Minha eterna dúvida...

José Carlos Brandão disse...

A celebração o amor. A rosa como oferenda, o próprio corpo transformado na flor, que tomba. É a semente, ou a flro, que morre para renascer.
Beijos, Ira.

meus instantes e momentos disse...

que tenha inventado a morte...

Maurizio

Mateus Luciano disse...

pedaços do dia a dia .

Valdecy Alves disse...

O texto é belo e a foto mais ainda.

Márcio Kindermann disse...

Lindo como sempre, mas uma pergunta não me cala: a vida não é inventada, então porque matar o personagem?

Saudade de tu.
Bj meu
mk

Marcelo R. Rezende disse...

Que coisa maaaaaaaaaaaaais linda.
Adorei, adoro esse finais trágicos, mas cheios de significado.

Beijo, Ira.

Gringo disse...

Love this 'Red Rose' shot. Beautiful!

Antonio José Rodrigues disse...

Contrariando o final da história, Ira, gostaria de oferecer a ela uma flor vermelha regada com palavras vespertinas/matutinas... in loop. Beijos reais

Érica disse...

Do que se inventa há sempre um pouco de verdade...
a alma vestida é que é cheia de invencionices
já a alma despida, gosta mesmo é de vermelho, do vinho e... ah!das rosas, muitas rosas!

um abraço cheio de carinho dessa que, felizmente, sem vergonha, vive com a alma pelada rsrsr

A.S. disse...

Belo texto!

As rosas muitas vezes têm espinhos que são mortais e seus doces aromas são apenas um disfarce...

Beijos!
AL

Nilson Barcelli disse...

Quando os sonhos são apenas fantasias, as flores são inventadas e nem têm espinhos...
Belíssimo texto. Gostei imenso.

Obrigado pela sua visita.
Volte sempre.

Um beijo.

Poeta del Cielo disse...

querida amiga que maravilha de texto.... emana emocao sentimiento desejo paixao tudo en comuniao que se lee en tu texto ... felicidades amiga amei...

saludos
abracos
otima semana

Mimo Chic disse...

Querida Ira,
nossa como tem o dom com as palavras. brota vida nelas,
uma benção,
parabens
bjs Lulu & Sol

Lila disse...

Iraaaaaaaa...
Tem desafio pra ti lá no Químicas...dá um trabalho pra mais de metro....kkkk
Amo.
Bjs meus !

Phivos Nicolaides disse...

Foto maravilhoso! Desejo que você tenha um fim de semana esplêndido! Beijooo. Felipe

Saulo Taveira disse...

"O nosso amor a gente inventa..."

Beijão.