
A mulher desmilinguindo no último quarto,
Nas doze horas grandes, em trabalho de parto.
Cabeça coroada na brecha, ela xinga e grita!
Expulsa de vez, finalmente, a cria bendita.
É menina mulher! Diz a velha parteira.
Potra de quatro quilos e choradeira.
A mãe desfalecendo benze o rebento:
Proteja Deus, a filha do meu sofrimento!
No fevereiro, seis, ela nasce carnaval,
Batuque que vem do cordão umbilical.
Carioca de clara e gema, mar de arraia.
Ira de Iracema, nome de índia e de praia.
Aos três anos e meio, a rua é um país de Alice,
De velocípede foge de casa, a curiosa meninice.
Assustada com tantos gigantes, ela desiste,
Depois descobre que são só anões tristes.
Faz do mar, aos quatorze, seu melhor amigo.
Confessa nas ondas os pés de fé e de perigo.
No cabelo longo de trigo, maresia e parafina,
Sol pra aquecer liberdade azul turmalina.
Da mãe ganha mimo e presente certeiro.
Pessoa, Reis, Campos e Alberto Caieiro.
A poesia morde a pele e injeta louco veneno,
Doença que soro não cura. Ah, mal obsceno!
Faz de conta que cresce e atira-se do Corcovado.
Mulher de sete vidas tem sangue excomungado,
Desses que não se mata. Motivo? Orgasmos!
Trepa com a vida, amor sem pecado, espasmos.
No tempo do relógio voa bem longe dos ponteiros
E vai ela, beija-flor, a beijar jardins cancioneiros.
Ama, odeia, sofre, ri e chora, as nuvens passageiras.
Assina orgulhosa, nome e sobrenome: Poeta Passarinheira.
A arte acima é mais um vôo dessa inquieta passarinheira!
